sábado, 30 de janeiro de 2016

E se o tempo do amor corresse pra trás...?

... mais ou menos como o curioso caso do Benjamin Button. Lembra?
Imagina se o final do amor fosse a paixão e não o contrário. Saber que se viveria a beleza de um sentimento terno e maduro até o momento em que tudo fosse intensidade e pele, pele e intensidade.
Até porque – me desculpem os que pensam o contrário – mas me parece que beira o consenso que o melhor momento do relacionamento é aquele de poucos meses desde o início, em que já se conhecem um pouco melhor, se permitem mais e se constrangem menos; aquele momento em que um simples toque dá choque e uma simples ausência faz chamar de volta; aquela fase em que a noite é curta para o desejo que é grande e que se repete num afã que desafia a saúde e que não para e nem quer parar, só continua. A hora em que toda hora é hora é o momento em que o prazer é questão de instante. E isso é começo, é tempo de um tempo em que o amor ainda não teve tempo. Pele é paixão. Paixão é urgência em movimento.
Imagina o desgaste diminuindo até não ser e o cansaço se reduzindo até não ter. Imagina a indiferença acabando e a atenção crescendo, aumentando até se fazer visível aos olhos e palpável ao tato. Imagina não se importar com a novela ou com o futebol. Nem com os outros, nem com ninguém. A vida acontecendo e você sabendo que o resultado de tudo não é o enfado, mas o renovo. Não o novo, mas o mesmo que o tempo só deixou melhor e mais gostoso.
Só que por improvável que é, o que se tem no mundo regido pelas leis da física é a paixão numa metamorfose que se completa ao ser amor. Um amor que faz o costume de estar junto ser o principal ingrediente a servir de motivo para não se estar separado. Um amor que se funde a uma ideia de afeto e de cuidado que aproxima mais o paterno do que o safado, mais o idílico do que o tarado. E isso é bonito, porém é chato.
A paixão como objetivo ajuda no jeito mais descuidado (que não se confunde com o jeito desleixado). Mas ela se ocupa mais de consumir que em preservar. É aquela que aperta, que puxa, que acerta, que arranca, invade e traz pra junto (bem junto). É a que não teme a marca, não teme o gosto, não teme o gozo e é só durante. O antes é prenúncio do que o depois é só o pretexto.
Por outro lado, talvez o amor tenha a ver com uma parcimônia que acompanha a involução física de cada um. Quem sabe ele seja mais condizente com essa calma comum àqueles que aprendem a contar o seu tempo com o tempo que têm. E então passa a fazer sentido que as pessoas procurem esse estado de mais paz e menos ansiedade, mais carinho e menos devassidão, mais afeto e menos solidão (que existe até mesmo acompanhada), crendo que o amor, mais que sentimento, é essa construção capaz de redefinir desde sonhos até valores que se amoldam a um resultado que, no seu início, não se quer menos do que bom.
Qual a melhor ordem pra você? A que leva a um amor tranquilo ou a que chega a uma paixão excitante e contente?

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Sexo e solidão

Bom. Sexo é bom e (quase) todo mundo gosta. E não é para menos. Há quem diga que mesmo quando é ruim é melhor do que sexo nenhum.
Acontece que apesar das transformações na sociedade, a relação das pessoas com o sexo muitas vezes se mostra conflituosa. Em que pese o sexo corresponder a uma necessidade quase instintual, as muitas regras acabam gerando outras muitas culpas que fazem com que o que deveria ser livre, seja tantas e tantas vezes mais e mais contido.
Mas mesmo assim, queremos sexo! Chego até a desconfiar que as grandes conquistas da humanidade só tiveram uma grande motivação: descolar “aquela” transa.  
Não estou dizendo que é verdade, mas não raro ouço quem diga que o sexo é a grande mola propulsora da sociedade (e nesse contexto não me refiro apenas ao sexo para fins de procriação). As pessoas gostam de se darem e se terem. E que bom que é assim.
Acontece que, invariavelmente, o sexo mexe com a ideia de afeto. E não apenas nas mulheres como os mais machistas podem afirmar. Uma vida sexual, sadia ou não, será responsável por uma mais alta ou mais baixa autoestima. E em tempos em que as relações entre as pessoas são cada vez mais rasas, o sexo vai se tornando em uma ânsia cada vez mais profunda. Resultado: confusão de sentimentos.
Talvez desde a queda do Império Romano, nunca se transou tanto. As “one night stand” estão cada vez mais comuns e o sexo acaba sendo um mecanismo de autopreenchimento (psicológica e não só fisicamente falando, é claro) e, consequentemente, de legitimação para a individualidade. A diversidade de experiências sexuais pode, incorretamente, sugerir uma indiferença com tudo o que não seja eu e, com isso, me fazer crer que fiz a melhor escolha quando optei, exclusivamente, por mim.
E aí está o grande problema. A mim tem me parecido que por mais intenso que seja o orgasmo da transa eventual da noite anterior, o instante seguinte faz da pessoa ainda mais vazia e solitária naquilo que está mais recalcado no seu íntimo. Por mais que a pessoa se julgue permissiva e pense que usa o sexo apenas segundo a necessidade de seu corpo, sem necessidade de qualquer conexão emocional com o outro, o confronto consigo mesma tenderá a lhe levar a que se perceba ainda menos preenchida que no instante anterior. Sim, porque sexo, por si só, não passa de mais um ingrediente da próxima sensação de solidão. Talvez ele – o sexo – tenha sido buscado por motivos que mais aprisionam que libertam.
Haverá ainda aqueles que dizem que o sexo é essa necessidade premente e que o dar-se e se receber ajudam a centrar os instintos na medida em que (nele) somos tomados por uma fúria de nos possuirmos com uma vontade que se justifica no tesão e que o gozo é o corpo finalmente gritando a vida que urge viver. Mas o gozo cessa o instinto e encerrado o instinto passamos a ser só a razão descoberta de toda pulsão e posta a mercê de todas as culpas acumuladas pela moral que calamos. É justamente esse instante aquele em que caímos do alto a que nos eleva o auge do prazer mais forte até o buraco da mais fria e completa solidão.
Mas nem por isso deixaremos de provar... 

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Frustração é vida. Se a vida vive, ela vive também.

A frustração é um sentimento interessante. É um dos poucos sentimentos de que a gente não pode culpar ninguém. A culpa é exclusivamente nossa, porque somos nós que as criamos a partir de uma construção que leva em conta todos os sonhos que projetamos realizados a partir da existência de alguém.
Mas quando eu falo em culpa, não é no sentido de punir alguém. Pelo contrário. A frustração tem que ser entendida como um sentimento que, se ruim, também é bom. A frustração é a maior prova de coragem de um indivíduo que mesmo não sabendo se haveria um “sim”, não usou temer o “não”. E, no mais, só se frustra quem se permitiu acreditar no sonho que lhe fez feliz.
Sonho em que se é feliz já é parte da felicidade. Não sabermos o amanhã não impede de deseja-lo e se, por qualquer razão, o amanhã for outro, que seja. Logo virão mais amanhãs. E com eles mais dias contentes que trarão sonhos contentes que acontecerão ou não. E depois disso? Mais amanhãs.
Enquanto isso, continuamos sendo a exata medida das nossas verdades e disposição. Nos mantemos postos ao alcance da intenção do que ou de quem pensamos, quisemos e até tentamos, mas que – pelo menos por enquanto – é apenas a ideia ousada e não querida que ainda vai custar sarar.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Somos todos Fabíola (e curtimos BBB).

Acredito que a essa altura a grande maioria já ouviu falar no caso extraconjugal de Fabíola com Léo e cujo flagrante fora filmado por um amigo do destemperado marido lá das Minas Gerais. A repercussão do caso me fez notar uma coisa: quando a maioria das pessoas diz que não gosta de Big Brother Brasil por tudo que, aparentemente, ele representa, elas estão mentindo.
Sim, porque na vida como ela se mostra hoje, somos todos Fabíolas e Leós a partir dos olhos alheios. O tempo inteiro julgamos e somos julgados. Expomos nossos pensamentos, nossas angústias, nossas alegrias. Se viajamos todos sabem e dão palpite sobre onde ir e onde não ir, o que faz ou o que comer. O tempo inteiro nós cuidamos de nos inserir nos assuntos privados dos outros. O tempo todo pessoas outras nos dão acesso aos assuntos que bem poderia ser apenas seus.
É isso: a vida do outro virou o espetáculo de todos. Vivemos em meio a um grande Reality Show em que somos votados para os paredões da falta de empatia, afinidade ou insucesso. E daí as pessoas votam se somos vencedores ou derrotados nessa vida que já não interessa só a um. Nas redes sociais, nos WhatsApps e afins, estamos o tempo inteiro assistindo a diferentes realidades e fazemos da vida do outro – e oferecemos para o outro – nosso papel mais conveniente e prol da necessária aprovação.
Daí a aparente indiferença da Fabíola. Na maior parte do tempo ela estava calada. Não chorava, não gritava, não pedia desculpas ou se afirmava livre. Apenas calada mexendo os cabelos. Ao comentar esse fato, concluí que esse ato talvez seja a amostra do quanto ela desprezava o próprio marido antes e quão despreza ainda mais agora. Sabe aquela coisa de: “está passando por isso e dando esse espetáculo porque quer”? Afinal, ele saiu investigando e, tendo sabido, ao invés de manter sua dignidade e entender que essas coisas acontecem (e muito) em todo o tempo e em todo lugar, arrumar suas malas e ir viver sua vida, preferiu fazer uma cena deplorável, na qual legava à esposa seu ódio e ao (ex)amigo apenas o seu desapontamento.
Quando vejo a reação da Fabíola e a reação do marido traído, concluo que ali ela tenha demonstrado todo o desprezo por aquele homem e por motivos que o vídeo não deixa saber, mas que estão lá. Só que ambos agiram de uma forma tal que parece nítido que a cada um tenha restado a sua própria indignidade: a que ele desprezou nela e a que ela deve ter desprezado nele.
Quanto ao Léo: o cara foi o que manteve a maior dignidade ao longo do tempo. Não falou nada, não se moveu do lugar. Encarou a situação dentro de suas possibilidades e, agora, certamente tende a colher os louros da sua fama repentina. É só se pensar que, a essa altura, mulheres de todos os lugares estão fazendo a pergunta que movimentou as redes sociais ao longo das últimas 48h: o que será que esse gordinho tem de tão bom? Logo ele, o amigo contra quem muitos se queixam por pensarem que por ser gordo era menos vistoso e, por isso, mais confiável.
Além disso, Léo passa a ser um símbolo da heterossexualidade. É inclusive por essa razão que suponho que sua esposa (que também é uma parte – oculta – da história) tenha lhe perdoado. Agora ela é casada com esse homem cujo apelo sexual é elevado às alturas na mesma proporção em que despertara a curiosidade. Estar com ele pode ser uma demonstração de força de quem não tem a intenção de deixar para que outras descubram o valor do que ela tem em casa.
Em tempo, é sim estarrecedor como alguém acha normal expor seus problemas num vídeo de YouTube como se tudo tivesse que ser compartilhado e como se a vingança fosse só o que importava. Há família, talvez filhos, uma sorte de pessoas afetadas por um ato infantil feito em represália contra algo que pode ser feio, mas que não é menos corriqueiro. O espetáculo do marido e a violência (física e verbal) desferida contra a esposa, fazem com que em todo o tempo ele seja o grande antagonista da história, porque tudo nele é ridículo e desnecessário. É só mais uma entre várias pessoas traídas e isso não lhe faz pior do que ninguém.
Agora, o cara que filmou e fez toda a entrevista... meu Deus!
Em todo o caso, quando for criticar o BBB ou quando for falar ou comentar a vida de alguém, lembre-se que quem está nas câmeras ainda tem o que ganhar, mas aqui do lado de fora, o que a gente mais faz é perder. E amanhã, a Fabíola de hoje pode, muito bem, ser você. 

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

É bom que as certezas acabem

É bom que algumas certezas acabem. As muitas certezas nos travam, impedem que cresçamos, aprendamos. É bom que elas nos deixem, porque seus fins nos deixam livres para que nos reaprendamos e cheguemos a ser aquele que realmente podemos ser, sem o compromisso de continuar sendo aquele que nos acostumamos, mas que não satisfaz.
Claro que o costume é parte importante da nossa vida. À bem da verdade, são poucos os que não se acomodam nas escolhas pretéritas e que, justamente por isso, ousam nas atitudes que pautarão seu futuro. E, quando tentam, fazem para acertar. Sabem da possibilidade do erro, mas mesmo assim se permitem romper com o ontem e começar vários novos amanhãs.
Nosso apego ao caminho percorrido é tantas vezes tão forte que, mesmo não gostando da estrada, continuamos a seguir rumo ao desespero de continuarmos sendo tudo o que não nos agrada.
E por quê? Qual é o nosso compromisso com a insatisfação e com as diferenças que mais aviltam do que completam? Por que continuar esmurrando a fina ponta cortante que machuca e não deixa sarar?
Porque nos acostumamos com a dor. Tudo o que é familiar parece mais seguro. Até o que não faz bem. Porque a dor de hoje uma hora passa e pode ser que dê medo ser feliz daqui a pouco e daí passe a se correr o risco de sofrer de novo outra dor. Então nos bastamos naquilo que nos fez e fazemos de conta que acreditamos que uma hora vai melhorar, mesmo sabendo que no mais das vezes nunca melhora.
Outra possibilidade é a nossa irresignação frente à nossa ausência de controle. Onde já se viu nos conformarmos com as circunstâncias terem mais poder que nós. Devemos domá-las, moldá-las, usá-las ao favor de nossas vontades e jamais admitirmos que as coisas não sejam como queremos se nos é dado condição de lutar.
Nosso grande paradoxo está em nos sabermos insatisfeitos, mas mesmo assim gastarmos nossa energia para nos mantermos no mesmo cenário que enfastia, que suga e que mói e isso só para mostrarmos e provarmos que a palavra final é nossa, que a decisão não nos é imposta nem sugerida, mas só por nós determinada ainda que seja apenas para no final reconhecer o que é óbvio desde sempre: quem luta para continuar perdendo jamais poderá almejar vencer.  

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Adeus.

Está aí. Pra que ficar na angústia de não saber a hora? Ou então, ficar tudo tão pior que eu anseie a hora. Escolhi escolher a hora do meu fim. E pensando bem, qual o propósito de tudo isso? Amar mais amores que não durarão? Viver mais romances em que alguém se machuca? Colecionar mais paixões que, no fim, passam e às vezes nem saudade deixam (apesar de sobrar ressentimento)?
Tentei me dar, não me quiseram. Quando tentaram me dar, fui eu que não quis. Talvez minha hora tenha sido errada. Talvez meu momento tenha passado ou mesmo não chegou. Penso que a minha hora aqui é extra de um ganho que nunca vem. Então eu vou. Vou embora desse mundo a que só encho e que só me enche. Vou-me daqui para onde talvez eu não seja eu, nem mais ninguém. Seja só a hipótese do que não houve, o lamento de quem não sente, a última chance de quem se calou.
Só queria olhos mais gentis, lábios mais gentis, mãos mais gentis, abraços mais gentis. Gente que me visse como a gente que lhes queria diferente. Alguém que fosse mais do que aquilo que qualquer um pudesse ser e que, então, entendessem que sempre estive ali, muitas vezes não sabendo gostar como podia, outras tantas não podendo gostar como sabia. Mas ali. Sempre ali.
O problema é que esse “ali” parecia um único canto em que só cabia eu. Toda vez que olhei em volta só via vazio. E se alguém olhasse para mim não era a mim que via, era através de mim, era como se eu fosse o espelho cuja presença era vil toda vez que não mostrava aquilo que aqueles olhos queriam ver.
Mas agora não precisa mais. Talvez a minha presença fosse tanta que a minha ausência não fosse nada. Mas até ausente me pus só pra descobrir que ninguém notou. Ou se notou, foi só para não se importar.
Se vou deixar saudade? Nem mesmo remorso.
Deve ser porque o resto do mundo anda pra frente enquanto ando em volta da minha própria história, tão atento ao que já foi que esqueci que todo o mundo continua sendo, menos eu. Mas quem disse que ainda quero? Que ainda espero? Que ainda pretendo? Aliás, quanto a pretender, só conjugo em inglês (e nessa mesma grafia).
É isso. Punirei o mundo e não a mim. A mim só anteciparei o que desde sempre já seria. E se não sei, nem saberei, agora, ao mesmo tempo – e desde já –, imagino o instante em que, já em paz, terei uma parte do mundo ocupada de buscar na memória os momentos em que lhes fui bom sem que tenham sido comigo, em que lhes fiz bem mesmo me legando indiferenças (que fazem mal). Sei que em algum momento, alguém haverá de levantar a voz para cobrar a minha desventura de ter sido cercado de vazios que vinham da insolência de todos aqueles que me requereram sem me prestar qualquer reciprocidade, que me buscaram sem que quisessem ser achados e que à contemplação de quem fui – e jaz! –, olharão os relógios para saber se já fizeram boa figura e já é tempo de ir.
Vão. Sempre foram. Continuem indo... adeus! 

Ouça o texto aqui.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

O adeus depois da cura – a história da ingratidão humana

Há uma história presente no Evangelho de que Jesus, com uma palavra, curou 10 leprosos e disse-lhes que se apresentassem limpos perante o sacerdote, sendo que, desses 10, apenas um voltou para lhe agradecer enquanto os outros nove, ingratos, foram viver sua vida.
Mas isso seria mesmo ingratidão?
Acredito que todos nós temos experiências com pessoas que enxergaram na gente algum alento para uma fase em que algo não lhes ia bem, mas que de alguma forma ajudamos a que passassem por aquela fase e se sentissem melhor. E, depois disso, se foram. Voltaram para sua vida sem que ao menos voltassem para agradecer.
Confesso que num raro momento de fé na humanidade fico tentado a crer que a gratidão existe, a sua demonstração é que é rara. Há um capítulo na história de cada pessoa que impede que aquele que passou e fez bem seja alguém estranho às suas memórias ou ao seu afeto. Acontece que se Jesus poderia sondar corações e saber onde havia soberba, ganância, bem ou gratidão, o mesmo não pode ser dito sobre nós. Um obrigado, uma lembrança, uma demonstração de que a vida segue em frente, mas se carrega do bom afeto merecido sempre fará bem.
Em tempos em que as pessoas são cada vez mais individualistas, cheias de si e preocupadas consigo, é causa de alento àquele que quis bem receber a ligação que só quer perguntar “oi, tudo bem?”, ou a visita que só quis mostrar que a importância está em quem é e não no que faz. Ainda que, em muito, pelo que já fez.
Mas ao mesmo tempo a ânsia pela felicidade leva como que nos ocupemos de sentir o que nos agrada e de olharmos só para o instante em que estamos contentes. Se estamos bem só olhamos para frente, não precisamos de ninguém, nada nos falta porque nos completamos com esse contentamento que acolhe a novidade excitante e esquece daquele “amigo” outrora constante. Só olhamos pro lado se precisamos de alguém e só olhamos para trás quando o socorro é urgente e a dor é tanta que desnubla as vistas e faz lembrar aquele alguém.
Às vezes damos sorte de ainda haver (vida, afeto, paciência). Pedimos a volta, pedimos por bem. Mas egoístas nem percebemos que enquanto felizes foi ele que ficou sozinho no exato momento em que foi ele que precisou de alguém.
“Pai, perdoa-os porque não sabem o que fazem”.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Se eu velasse meus pais...

A morte é o tema que mais me fascina e, ao mesmo tempo, o que mais me aterroriza. Não que eu tenha medo de minha própria morte. Dela tenho mais curiosidade (ainda que sem maiores ansiedades). Mas o medo da notícia que me contará que o meu tempo com quem amo acabou porque aquela pessoa morreu, esse me acompanha a cada segundo.
Dia de Finados é dia de pensar na morte. Pelo menos para mim que vivo acompanhado dela o tempo inteiro em que me ocorre de lhe pensar. E não porque eu reze pelos mortos (a bem da verdade, nos últimos tempos não tenho feito nem por mim ou pelos outros vivos, nem por quem quer que seja). Só sou alguém para quem é inevitável pensar na morte que de um jeito ou de outro, sempre vai chegar.
Nessa época me recordo da frase atribuída a Anne Frank que, em seu diário, teria escrito que “os mortos recebem mais flores do que os vivos porque o remorso é mais forte que a gratidão”. E talvez seja disso que o dia de finados venha se tratando: remorso.
É então que me vem à mente a terrível imagem de um futuro velório de meus pais (que torço para que muito distante) – se é que será antes do meu.
Quantos remorsos será que eu carregaria?
Quantas vezes as razões que foram deles e não minha me voltariam e assombrariam e, das várias vezes em que certos eram eles, mas mesmo assim, no alto de uma soberba estúpida de uma vida medíocre e mais estúpida ainda, fui mais fiel aos meus erros que aos cuidados seus ?
Quantas vezes eu quererei ter-lhes dito: “eu vi que te deixei triste, mas não quis me desculpar”?
Quantas vezes eu quererei voltar o tempo para quando quiseram me dar um conselho e, impaciente, dei a entender que sua opinião me exasperava, me cansava e que eu já sabia o que deveria fazer, mesmo sabendo que tudo o que eles queriam era mostrar, com seu jeito de se preocupar, só queriam o melhor para mim?
Quantas vezes eu quererei voltar o tempo para aquele dia em que todos juntos nos calamos? E quererei a voz que agora é calada para sempre e jamais me dará qualquer opinião.
Se eu velasse meus pais sem que eles soubessem que cada tristeza que lhes fiz passar me dói e que cada angústia a que lhes submeti me mata, que terrível seria.
Se eu olhasse seus féretros pensando nos “eu te amos” que faltaram, nos “obrigados” que calei, na gratidão que devo ter pra sempre, mas que faltei e no carinho que os olhos e os lábios não deram, que vida seria essa que desde há muito eu já perdi?
É estranho quando a gente olha pra gente e vê que somos sempre prontos a sermos mais duros com quem está mais pronto a nos manter com seu amor. E é mais estranho quando pensamos que gritamos e cobramos mais de quem vai nos fazer mais falta se um dia nos faltar.
E são para esses mesmos que parece que mais custa o carinho desinteressado de quem só quer fazer saber: “a minha vida seria muito mais triste sem a presença de você”.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

O passado que estamos construindo

Há certa ingenuidade naquele que se pensa livre do próprio passado.
Não raro é possível que nos deparemos com pessoas que em lances de autoafirmação, invocam sua condição de quem não olha para trás, só olha para frente porque o que interessa é o que está por se viver e não o que já se viveu. Há até uma frase bastante comum de se ver repetida nas redes sociais, que insta as pessoas a que parem de olhar para trás porque elas já sabem onde estiveram e o que importa é saber para onde se vai. Mas é fácil assim? Somos livres em relação ao nosso passado?
Creio que não. O nosso passado é a bagagem mais pesada a que somos obrigados a carregar. É como se fôssemos um Sísifo que não vê a rocha rolar ou um Atlas que, sobre os ombros, tem todo o nosso mundo cada vez mais pesado por todas as muitas escolhas e ainda mais pesado por todas as outras renúncias que nos assombram com todas as possibilidades não realizadas e com todo o tempo que não vai mais voltar.
A vida que poderia ter sido, a vida que deveria ter sido, a vida que talvez nem tivesse sido, mas que acreditamos que seria, são todos espectros passados que assombram o presente. Todos os nossos “hoje” são a consequência inevitável de tudo o que se viveu ou não, se experimentou ou não, se escolheu (porque não escolher também é escolha).
O passado, o presente e o futuro são sempre presente. Quando eu olho para o passado eu não revivo o instante da escolha ou da renúncia. Eu vivo o presente em que o passado me assombra. Quando eu sonho o futuro, eu não vivo o instante em que se acontece o que me sonho, eu vivo o presente em que o futuro parece o que é bom. Assim, tudo o que eu vivo é o presente, o presente que ao mesmo tempo constrói o futuro e o passado de amanhã.
Quando sentimos a dor do presente de que o passado inglório é causa, precisamos mudar. Quando sabemos que o ontem dói no hoje, é imperioso que olhemos para trás e, desde hoje, curemos o nosso amanhã. Se a vida vive para frente – e ela vive só para frente – precisamos da consciência de que todo o tempo que temos é o “quando de agora” e que a única forma de, amanhã, olhar sem dor para o hoje que será ontem, é estabelecer o compromisso de estar mais que possível no comando de cada instante a partir de agora, mudando o que está errado e tudo o que não deu certo, reconciliando com nossos sonhos, anseios e com tudo que somos nós, a fim de, honestos com a vida que nos queremos, alcancemos um amanhã cujo ontem nos absolva mais do que nos condene.
O ontem já começou hoje e é ele que nos cobraremos amanhã.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

O problema da vida real

Portas fechadas, luzes apagadas, cama vazia, escuro. A cena proposta é um vazio total a exceção de você. Não há o que ou quem te distraia e, ante a ausência de todos, tudo o que te resta é você. Toda a tua companhia é só você e a única proposta de escuta é o barulho que fazem os teus pensamentos. Você está por sua própria conta e o que pode ser da tua conta é só o tudo e o nada de você.
Não, não é sempre e nem para sempre. Mas nesse instante, o convite é para que você descuide do mundo e se concentre somente em você, da tua vida, das tuas escolhas e das consequências de cada uma das tuas escolhas. Isso te aflige ou você faz com prazer?
Vivemos tempos em que, não raro, as pessoas têm evitado se confrontarem com a vida que vivem. A vida que vivemos cada vez satisfaz menos e cada vez incomoda mais. Ao mesmo tempo em que convivemos com pessoas que gritam uma felicidade na busca de se convencerem felizes, não é forçoso que nos “surpreendamos” com o soçobrar de uma vida que desistiu, que se entregou e que morreu.
Os apontamentos que nos dão notícia do alto índice de pessoas que apresentam quadros depressivos – pessoas a quem dói viver – também não se devem a simples acasos. Mais e mais as pessoas gostam menos de si e, confrontadas com a acusação da felicidade alheia, ressentem a vida que vivem e, mais ainda, a vida que não lograram viver.
E esse é o grande problema da vida real: ela tende afastar da vida que se pensa ideal.
As urgências do dia-a-dia nos solapam. Todo dia precisamos fazer o que precisamos fazer e, cada vez que fazemos o que precisamos, deixamos de fazer o que queremos.           “Escolhas um trabalho que ames e não precisarás trabalhar um dia sequer”, mas se escolher não fosse tão difícil.
O ser humano parece viver de ausências e isso parece normal na medida em que o desejo está na falta. O que se tem é história, mesmo que presente. A vida sonha e deseja mais na exata proporção com que impõe renúncias. Não nos é dado que tenhamos tudo o que queremos e menos ainda que tenhamos além daquilo que temos. A escolha de um pressupõe a renúncia de vários, então sempre que escolhemos perdemos e o que não vivemos continua perfeito na vida que sonhamos. Por sua vez, o sonho não sobrevive à realidade e, feito real, não alcança o ideal.
Quando escolhemos o que sonhamos e ele deixa de ser perfeito para ser real, tudo o mais que era ideal continua no campo do perfeito e continua parecendo bom. Agora, até parecendo melhor. Já esquecemos as circunstâncias que, antes, preferiram o par ao ímpar ou o claro ao escuro. Tudo o que não se quis passa a representar o que deveria ter sido e tudo o que foi parece o erro que se deveria evitar.
Não se trata de ingratidão. Trata-se de ser humano na essência de toda a sua humanidade. Querer não depende do outro, depende da gente. Não depende de ter, mas tem a ver com não bastar. E nada basta. A vida é curta pra tanto desejo e as escolhas são poucas para tanta renúncia. É como foi, é como é e assim é que será. 

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Errar sem medo de perder (ou, se arrepender é normal)

A gente faz escolhas o tempo inteiro. Escolher é, certamente, das experiências mais brutais a que nos submetemos. E não é por um acaso que a maioria das pessoas faz de tudo para não escolher. Uns acusam o destino, outros recorrem à vontade de Deus: quando a gente escolhe a gente sempre perde. Mesmo que ganhe, sempre perde. É como na música do Charlie Brown Jr: na vida, "cada escolha, uma renúncia".  Só que se a gente pensar bem, na verdade, a cada escolha são várias as renúncias a que elas nos obrigam.
E se para escolher uma é preciso renunciar a várias, logo, se arrepender é o que há de mais humano e o que há de mais normal.
Fiquemos, pois, tranquilos: você, eu, todo mundo... a gente sempre vai se arrepender. E não porque não nos escolhemos o que haveria de ser o melhor, mas porque quando escolhemos o que escolhemos, fazemos acreditando no ideal. E a escolha que vai sair desse “campo do ideal” e se tornar real, ao ser real, (não raro) será diferente daquilo tudo o que a gente imaginava e queria quando ainda apenas sonhava ao tempo de escolher. Nesse momento em que a escolha se faz real e o real se mostra cru e cruel, todas aquelas outras opções que foram abandonadas, nos assombram a partir da perfeição daquela ideia outra (das escolhas outras) que a vida não logrou estragar sendo real. Assim, essas renúncias vão sempre nos dar a (in)satisfação ideal ao imaginarmos que lhes ter escolhido nos teria garantido uma vida mais feliz.
Ora, se a escolha pressupõe renúncias várias e essas renúncias várias sempre pareceram mais perfeitas do que a escolha feita que por ser verdade insatisfaz, é cada vez mais importante estarmos no domínio de nós mesmos para que entendamos as nossas circunstâncias e - dentro do possível - as circunstâncias dos outros. Essa talvez seja a única maneira de sermos justos em relação a nós e às nossas expectativas em relação ao mundo que devemos ao menos tolerar.
"Conhece-te a ti mesmo e conhecerás aos deuses e ao universo...”, era a recomendação que o oráculo divino trazia desde o Olimpo. Mas é daí que vêm as melhores decisões. As decisões bem tomadas que, porém, não estarão imunes ao arrependimento. Até essas carregaram certo arrependimento. Conheça-te. Saiba de verdade quem você é, do que gosta, porque gosta, o que quer e porque quer e persista. Ouse. Erre, quebre a cara, sofra, mas viva, reviva, prossiga. A vida é uma só e se precisa viva, porque para não viver já basta o momento que teremos que morrer.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Amante

Voam sem asas, cheios de planos de sonhos e tempo
São almas livres que querem coro e querem ouro, querem voo.
E quando saem, livres, seu passo é de quem não cansa
É de quem mesmo corre já que anda como se pisasse em ovo.

Suas asas se abrem e então também escondem.
- Como mostrar o que quer ser visto?
Os olhos que olham não são dos que querem ver... São só olhos
Desses que à mínima luz se agitam, tapam e escondem... se escondem.

Um dia, dois dias, um tempo...
Todo o tempo mais cruel que tempo nenhum.
A vilania de quem não para e nem espera
De quem mais e mais passa e se exige passar.

E passa o tempo que não deixa passar.
E fica a lembrança que não deixa passar.
E aumenta o cansaço que não deixa passar.
E amplia um espaço que já não dá pra passar.

Passa, não passa, não deixa, aumenta, cansa, se perde, amplia
Dói, depois não dói, remói e quando vê... foi.
Era, mais era, uma era, duas eras, nova era.
Depois de todo inverno é sempre primavera.

(27 de março de 2015).

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Se ofender com o Zeca Camargo é vestir a carapuça. Ele foi preciso...

Desculpem-me os ofendidos de hoje, mas o texto do Zeca Camargo apresentado no "Jornal das 10 da Globo News" reproduz à exatidão o que tem sido a “constante ‘cultural’” da grande parte da população brasileira.
Vejo que movidos por uma indignação pessoal de um Eduardo Costa (que acha sentido já que atingido pela crítica musical), várias pessoas parecem reagir indignadas com um desrespeito que não houve. A não ser, é claro, que haja um evidente déficit cognitivo que faça entender que o Zeca Camargo estava falando da música do Cristiano e não da vida do Cristiano.
Desculpem-me de novo (agora os que pensam o contrário), mas não é porque morreu que virou um artista relevante. É óbvio que lamentaremos a morte de um jovem em condições tão trágicas. Ele foi, sim, vítima de um acidente de trânsito já que era carona. Mas o fato de ter morrido não vai alçar sua música a uma condição de “arte” na essência da expressão.
Custa-me acreditar que de fato haja quem, analisando a história e a música ao longo da história, consiga de fato crer que  “obra” do Cristiano Araújo – a exemplo de seus companheiros sertanejos do circuito universitário – tenha potencial para transcender essa geração. E isso, por isso, justifica as menções expressas a Kurt Cobain, Mamonas Assassinas e Michael Jackson e as imagens de Cazuza (e também Renato Russo).
A partir disso, proponho que analisemos o que foi dito pelo jornalista global que é, reconhecidamente (e suas carreira prova isso) um dos grandes críticos musicais e de “pop art” do Brasil.
Ele começa dizendo que "muita gente estranhou a comoção nacional com a morte". Quer verdade maior? Até aceito que ele já tivesse fãs de verdade, inclusive vi crianças que os pais deixavam se vestir como ele (?), mas pasmem, é fato que muitos de nós nunca tínhamos nos dado conta da existência desse rapaz. Logo, ele não desrespeita a memória de ninguém ao apenas constar o óbvio: era um rapaz ao mesmo tempo “tão famoso e tão desconhecido”.
Mas o que eu acho que mais causou a indignação ao cantor que puxou o movimento, foi a referência que abriu o balaio em que ele se viu lançado. Foi quando o jornalista, referindo-se ao atual momento da música brasileira, afirmou que ela vem sendo composta por “um punhado de artistas que não são um consenso popular, mas levam multidões para os seus shows (...) Revelações de uma música só [ganhando dinheiro até que a] faísca desse sucesso singular apague sem deixar uma chama mais duradoura”. Perfeito! Quem é capaz de imaginar essas músicas de hoje tocando daqui a 50 anos? Daqui a 30 anos? Daqui a 20 anos? Daqui a 5 anos? Quais os sucessos das rádios em 2010 ainda são “minimamente relevantes” em 2015? Eu respondo: nenhum! Não tem história, não tem mensagem, só tem consumo, um consumo desvairado, desenfreado, insatisfeito. Não faz refletir, não faz repensar, não faz ressentir.
E então ele chega a outro grande símbolo da atual geração. O consumo da obra de arte pronta, muito bem representada pelo tal livro de colorir para adultos. Que se queira usar o colorir como “terapia”, para desanuviar a cabeça, é compreensível. No entanto, os dia-a-dia das redes sociais mostram pessoas “orgulhosas do que coloriram”, como se estivessem fazendo arte, o que só mostra a banalização desse conceito.
Em uma das discussões sobre a repercussão da morte do cantor, li de um professor paulista, autodeclarado pesquisador de música, que Cristiano Araújo (e daí me permito estender seu ponto de vista aos demais laboriosos sertanejos) era, sim, poeta, porque o que ele fazia era poesia. Só que não. Poeta faz poesia que se supera no tempo, que atravessa o século, que falar com o homens e mulheres de todas as gerações, que provoca, que realiza, que se renova no tempo. Se esses cantores fazem poesia, é poesia ruim.
A necessidade de heróis que sirvam de referência é um fato antigo. Mas o Zeca Camargo é mais uma vez muito feliz quando ele identifica o que chamou de um “desejo de uma catarse, um evento maior que uma pela emoção”. A atual geração é profícua em mentir para si, para se sentir bem em meio ao lamaçal de mediocridade sob o qual se chafurda.
O Brasil não perdeu um ídolo. O Brasil perdeu mais um jovem. E só (o que não é pouco).
Felizmente o “nosso POP não precisa ser assim”. Sem contar a quantidade triste de artistas que já morreram (Cartola, Zé Kéti, Nelson Cavaquinho, Luiz Gonzaga, Raul, Renato, Cazuza, Tim, Gozaguinha, Dolores, Dorival, Tom, Vinícius, etc.) Sem contar a quantidade triste de artistas que já morreram (Raul, Renato, Cazuza, Tim, Gozaguinha, Dolores, Dorival, Tom, Vinícius, etc), temos artistas, músicos, cantores que, cada qual ao seu tempo já transcenderam gerações (e continuam transcendendo). São artistas em plena atividade e que já acumulam mais de 60 anos de carreira (Cauby, Ângela Maria, Agnaldos), mais de 50 anos de carreira (Roberto e Erasmo Carlos, Jorge Ben, Edu, Chico, Toquinho, Paulinho, Caetano e Gil), mais de 40 anos de carreira (Milton, Rita, Djavan Fagner e Ivan Lins), mais de 30 anos de carreira (Titãs, Barão, Paralamas, Capital), mais 20 anos de carreira (Marisa Monte, Skank e Jota Quest) e outros mais recentes como Marcelo Jeneci e Tulipa Ruiz que trazem o alento de sabermos que a música brasileira ainda pode ser objeto da boa arte.
Como bem disse o Zeca Camargo, e uso suas palavras pra encerrar esse texto, “temos tudo para adorarmos ídolo de verdade. Mas hoje não temos nada assim”.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

A gente sente e o outro se ofende. O que dizer pra ele: ah, vá te catar!

A minha dor te incomoda. A minha alegria também te incomoda. O meu amor te incomoda. A falta de amor em mim te incomoda também.
Não. Não estou falando especificamente nem de mim e nem de você que me lê. Estou falando das pessoas em geral. Parece que “sentir” é cada vez mais proibido. Se você sente dor e chora, logo querem te dar um remédio pra disfarçar a dor. Se você está de luto e se desespera, logo alguém te oferece um calmante pra te desligar. Se você está alegre e se anuncia feliz, logo surge um censor pra te duvidar. Se você está com raiva e se expressa, eis que vem o “bom” pra dizer que raiva não é sentimento que se deve expressar. A todo o tempo querem te pautar, te controlar.
Nunca reparou nisso? Tem sempre alguém pronto pra dar uma opinião sobre o sentimento alheio. Não é a pessoa quem sente, nem é a pessoa quem viveu, quem experimentou, quem tinha a expectativa realizada ou que não se realizou, mas ainda assim essa pessoa que não é nada acha que tem condição de dizer que há exagero, que há falsidade, que há erro ou que há muito torpor em quem, ao invés de ficar na sua, não teve medo de se expor.
Por que isso acontece? Porque as pessoas estão cada vez mais incapazes de lidarem com os seus sentimentos e, então, resolvem se meter no sentimento do outro. Vivemos tempos em que sentir parecer ser cada vez mais ofensivo. Alguns exemplos:
a) A pessoa não é magra, mas posta fotos na praia porque se sente bem e logo ofende aquela outra que é magra, mas queria ser mais magra e por não ser magra como quer, não consegue se gostar e tem raiva de quem se gosta.
b) A outra é feliz na balada, gosta de balada, posta fotos de balada e todos acham que se expõe demais porque sua vida é vazia e precisa fazer conta que é feliz. E quem faz isso, geralmente, é aquela pessoa que não aguenta mais ficar em casa, mas que não tem coragem de sair e descobrir se a vida e o mundo ainda têm algo a lhe oferecer (e sempre tem).
c) Alguém reclama do mau serviço de uma empresa, de um órgão público, de um prestador ou de Deus, do seu time de futebol, do médico ou da justiça e logo surge alguém dizendo que a pessoa não deve se sentir contrariada e nem expor seu desgosto porque está se expondo demais e ninguém precisa saber o que ela pensa, o que sente e as razões que lhe levaram a isso.
Ora, não é mais fácil que quem acha que deve calar se cale e quem acha que deve falar, fale e seja respeitada no seu manifestar, ao invés de bombardeada por ter tido a coragem de falar? Parece que não. Todos parecem ter opinião sobre tudo. Mas tudo que é do outro, porque fica mais fácil não precisar olhar pra si e se descobrir ruim e desinteressante (e pior, sabendo que a culpa é toda sua).
O que vejo é que sentir ofende, sim. Ofende quando a pessoa consegue se expressar e o outro não. Ofende quando a pessoa tem coragem de se mostrar e o outro não. Ofende quando a pessoa desafia os costumes e o outro não. E a coragem dessas pessoas escancara a pusilanimidade das outras que, reveladas em sua mediocridade, investem contra quem apenas se permitiu sentir.
E sentir livre. Porque, não sei se você percebeu, mas estão querendo aprisionar até o sentimento. Estão querendo dizer como se deve e se pode sentir. Se você sentir como a maioria, não tem problema, talvez deixem passar. Mas se você não gostar do que todos gostam, não aplaudir o que todos aplaudem e não defender o que todos defendem, você vai ser condenada numa pena que só não vai ser mais cruel do que todo o processo de julgamento em que vão te judiar.
Não vamos deixar que seja assim. Vamos gritar, vamos cantar, vamos sorrir, vamos chorar, ousar, duvidar, nos mostrar, pular, ser bobo, ser louco, mudar e ser tudo de novo sem que ninguém consiga nos tirar o prazer de ser, rever, viver e gozar.
Agora, se o sentir te ofende, é melhor se acostumar....