quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Eu quero mais...

Queria ser mais do que o sonho que me permito e ainda mais do que o que já me fiz. Não que tenha feito pouco. É que o que fiz já é passado... é só história.
Quero o que ainda não chegou pra que depois não tenha problema em querer mais do que só me chegará se fizer por onde.
Quero. E isso é tudo que sei. Mas sei até bastante pra me fazer com que me faça mais...
Quero mais dinheiro, quero mais trabalho, mais saúde, mais tremores, menos temores e mais ambição. Quero mais sexo... Mais sexo com mais amor, mais sexo com mais tesão, mais sexo com mais sacanagem... quero muito mais safadeza e sacanagem!
Quero a paixão que derruba da cama e que volta pra ela mesmo quando estou só. Quero som, quero fúria, muito sim e nenhum não, não quero sentir pena, nem quero sentir dó (não há harmonia que se faça numa nota só).
Ah, eu quero... Quero olhar pra trás sem sentir saudade, olhar pra trás sem me enxergar parado lá... Eu quero...
Quero a mão, o braço, o corpo e a alma... a dor da luta e o gozo da dor. Quero cerveja, scotch, cachaça e até licor... Quero tudo que tenha gosto, quero mais (e só) do que tem sabor.
Quero música, poesia, mas quero prosa e companhia... Quero brindes e alegria.

Quero vida, mais de uma vida... Outra vida, tantas vidas, minhas vidas numa vida que só se completa quando não há mais vida...

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Trintei!

Completar 30 anos é mais um símbolo do que uma mudança. Ao menos em mim, não há o que veja que me mude de quem era quando foi 20 ou 25. Sinto o mesmo e não porque já era maduro, mas justamente porque continuo duvidando de que esteja crescendo.
Em brincadeira poderia dizer que me consola saber que os que estudaram comigo na escola vêm juntos a somarem seus 30 anos também. Entre aqueles com quem estudei na faculdade, sou o último a fazer 30 e todos eles, já aos trinta, parecem passar bem. Que bom.
Pode ser que a minha impressão se deva ao fato de não ter iniciado minha família ou de não ter, ao menos, uma descendência que dependa de mim e que me faça ter que ser o que venho relutando me tornar, mas ao mesmo tempo sinto que faço 30 tendo muito no que refletir e recordar.
A primeira reflexão parece ser inevitável. O tempo passa mesmo. Passa e nos leva com ele até nos deixar onde não há mais andar, respirar e nem lembrança ou dor a lamentar. Passa implacavelmente. E muito tempo já ficou pra trás. 30 anos são 1.560 semanas, 10.957 dias, 262.968 horas que não voltam mais. O que foi feito já é história e a história, resultado de tudo o que me fez esse que precisa seguir em frente em busca do que ainda será. E tomara que ainda seja alguma coisa.
A segunda reflexão vem das milhares de pessoas que passaram por mim diariamente ao longo de todo esse tempo. As salas de aula repletas em que estudei e fui professor, os pátios lotados, zeladores que contribuíram com meu ambiente, secretárias e secretários que foram parte da minha educação e professoras e professores responsáveis por muito da minha formação, são ainda lembrança importante e viva do que já passei.
As igrejas e os amigos da igreja. A contagem dos dias para o fim de semana, Escolas Dominicais, aulas de música, ensaios de orquestra, juventude, liderança, superintendência, pregações em púlpito, salas e rodoviárias, tudo é parte de uma história que até parece ser nada, mas quando olho, significa muito.
Minha família que guardada por Deus cresce mais do que diminui e mesmo na perda mais doída e importante, mostra que o cuidado de Deus é constante mesmo comigo que sou tão pouco fiel. As lágrimas de meus pais, as dores de minhas irmãs, a fé de minhas avós, a astúcia de meu avô, o constante superar de meus tios e o crescimento firme de meu primo e primas, alegram meu coração tantas vezes machucado, mas que ainda soma suas mais de 10.957.000 batidas desde o meu primeiro dia.
Os amores, as paixões, as aventuras, as ocasiões e a perda das oportunidades. Alguns lamentos, alguns erros, alguns sonhos, algumas memórias, muitas lembranças, tantas saudades, tanta vida e algumas lágrimas que molharam papéis, colchões ou que rolaram no chão, tudo me fez que eu sou.
As pessoas mais especiais dentre as mais especiais, mas que já não existem ao redor, são importantes até quando deixam espaço pra que surjam novas pessoas também mais importantes dentre as mais importantes a contribuírem pra que seja quem sou, mas um pouco melhor.
Fazer 30 anos não muda nada de quem a gente é. Mas ajuda que a gente veja que por mais que o tempo passe, por mais que ele corra, por mais que pareça tudo fora da hora que já não há mais, já tivemos tanto que não dá pra ficar como louco achando que tivemos pouco se ainda há tempo pra termos bem mais... muito mais.
Cheguei aos 30. Não achava mesmo que chegaria a tanto. Mas agora que cheguei, quero alcançar anos e mais anos, mais e mais...

LIRA DOS 30 ANOS

Se com uma mão me censuras enquanto co'a outra mão me repete
Tudo que existe de ti é tão verdadeiro qual cidade em maquete.
Que estranha façanha essa sanha de então
Que crê na inverdade e não tem a menor piedade
E deixa que a mágoa te seja no peito vazio maior que o mais largo desvão.


Enquanto destilas esse teu veneno encubado
Tomas por feno o que não passa de palha
E apesar dessa falha gritante que você cometeu
Nada há o que consiga evitar que acredites
Seres tu todo o acerto de um erro que crês todo meu.


Ah! se ao menos notasses que o real da quimera está no possível e não na ilusão.
Quem sabe entendesse que sou bem mais do que esperas
E que em nada te perdes quando enfim te permites
Abrandar tuas feras e aprender a lição de que já estamos quites
Toda vez que aceitamos que partilhar coração nem sempre é palpite, nem sempre é paixão.


Só que agora tudo o que pressinto é o que me vem por instinto e que não costuma mentir.
Como se por palavras, o vento sussurra que há tempos me escondes tudo o quanto me cobras
E que já até me quiseras quem inquieta teu sonho, mas que agora te alegra fazer-me tristonho
E que tudo que me guardas é o desejo por essa vingança terrível que me lega em herança
Até que me sangra à adaga com que matas sem ao mesmo esperar que termine nossa última dança.


Fui... Mas porque me afastaste e pra longe da vida que me quis foi que me lançaste.
Me mandaste antes do tempo, quando me queria por mais que o tempo que o próprio  tempo tinha.
Pra mim o tempo já não tem sentido e nem efeito já que tudo é desfeito do que vivemos outrora
E já nem conto, porque de nada mais me vale saber do tempo, do amor ou mesmo da hora.
Mas ainda lembro do tempo em que houvera censura, veneno, vingança, mentira e ilusão.

Ah! Essas lembranças... Quantas eram, tantas sempre serão...

(William Ricardo Grilli Gama - 12/02/1985)

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

O fenômeno “50 tons de cinza” e a difícil arte de amar

Amanhã é a estreia mundial de um dos filmes mais aguardados do ano: 50 tons de cinza.
Dificilmente deve haver no mundo quem não tenha ao menos ouvido falar do livro em que se baseia o filme (considerando, por óbvio, a população acima de 12 anos e com acesso à internet livre), de forma que é muito difícil que se você está lendo esse texto, não saiba que o livro fala de uma jovem universitária virgem que é seduzida por um self made man­ bilionário, adotado por pais de classe social alta, mas vítimas de abusos que o tornaram vulnerável ao ingresso no universo sadomasoquista e que vê na moça – por quem posteriormente se apaixonara – o perfil ideal para submissa.  
Apesar de seu sucesso comercial – ou justamente por isso – desde o seu lançamento sempre surgem críticos ferozes ao livro e a forma como a história se desenrola, sendo que a maior parte das críticas vem de mulheres que enxergam no enredo o reforço a uma imagem da mulher como sendo inferior ao homem esse sempre mostrado como o príncipe capaz de tirá-la de sua torre, apresentando-lhe para o melhor prazer sexual por muitas nunca experimentado.
Há ainda mulheres que não se conformam com o fato de outras mulheres fantasiarem com um livro que acham, no mínimo, chinfrim, pois creem que o sexo pode ser muito mais desde que a mulher não aceite que o homem lhe imponha muito menos.
Mas o livro não é uma simples história que serve de fundo para rolar a sacanagem. Na medida em que a história se estende até se tornar uma "trilogia", fica mais evidente que a questão do sadomasoquismo é menos relevante do que a forma como vai se construindo o relacionamento entre duas pessoas cuja autoestima é menor do que as aparências sugerem (e isso acaba sendo de fácil percepção quando a gente analisa a forma como eles enxergam os olhares de outras pessoas para seu par).
De minha parte, enxergo uma relevância na série "50 tons" na medida em que ela serviu e tem servido de um subterfúgio bastante conveniente para que muitas mulheres (há muito subjugadas pelo machismo) pudessem refletir sobre sua sexualidade e, inclusive - para desespero de seus parceiros - colocarem esse assunto em discussão.
É verdade – e todos e todas sabemos disso – que muitos maridos acham que as mulheres não pensam em sexo e que o tesão é exclusividade sua, por isso pensam que as mulheres devem estar dispostos a si, mas não se importam de se porem dispostos a elas. Quando, de repente se deparam com a esposa deliciosamente suada ao se imaginar com o “Sr. Grey”, sentem-se tolhidos de sua masculinidade e preferem culpar a esposa ou suas amizades por ela estar desejando o que uma “mulher de família” não poderia nem conhecer, quanto mais saber.
Ridículo! E que bom que as mulheres estão querendo mais e exigindo mais. E, se não têm, também não se privam e vão atrás de quem vá atrás. Os maridos, namorados, companheiros e afins, ganham muito mais quando aceitam e reconhecem a sexualidade da mulher e se unem a elas na descoberta do prazer mútuo, experimentando de mente e peito abertos as fantasias que muitas vezes nem eles sabiam que tem. Mas preferem achar que a mulher tem que ser casta e só desejar a ele e a mais ninguém. Nunca será! E seria péssimo se fosse...
No entanto, continuo defendendo que buscar na série "50 tons" uma leitura erótica é reduzir a amplidão e até mesmo a relevância que essa obra pode ter daqui pra frente.
O presente não analisa a história que ainda será e o receio da presunção me faz apenas refletir se a despeito da liquidez de tudo quanto se faz e se tem no mundo atual, daqui 100 anos o impacto dessa série não será visto como hoje se vimos o causado por "Madame Bovary".
Acredito que a leitura do livro (e agora o assistir ao filme) menos preocupada com o sexo e mais preocupada com os aspectos da transformação que o "relacionarem-se entre si" causou nos protagonistas, poderá fazer com que se enxergue que a ideia não é a de fazer pornografia, mas de mostrar que na cumplicidade e no amor há espaço pra todo tipo de desejo, sacanagem e até uma certa perversão.
E pra que sejamos sinceros, quem não gosta de um pouco de sacanagem é porque ainda não aprendeu o que é bom. Ou não é?

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Sorriso de fotografia

Quantas foram as vezes em que você sorriu pra esconder uma tristeza ou fez do sorriso um escudo que impedisse que te vissem quem é? Quantas vezes você abriu os lábios, mostrou os dentes bem cuidados por tratamentos longos de ortodontia e escondeu teu sentimento atrás dessa parede feita inteira de você?
Sorrir com os lábios mostrando os dentes é fácil. Se for uma fotografia, melhor ainda, porque ela congela aquele momento e permite que a gente sugira a falsa impressão de que nós somos (ou pelo menos estávamos) felizes.
Acontece que muitas vezes você sorri, eu sorrio, todos nós sorrimos segurando a vontade de chorar. Sorrimos só porque parece que é o certo a fazer já que não queremos ser os únicos a mostrar dor onde todos parecem só conhecer o prazer. E então a gente abre os olhos, diz o “xis (ou cheese)” e pronto: quem nos olha nos pensará bem melhor do que estamos. Mas por dentro a gente chora a dor que não cala e convive com a hemorragia que não sangra, mas também não estanca. Uma hemorragia que nos suga a própria alma.
Foto de família. “Atenção, olha o passarinho... click”. “Que família linda e feliz, nem deve ter problema”. Mas depois do flash foi cada um pro seu canto, pois representaram seu papel até o momento do “corta!”. O marido já tem outra família, a esposa se encontra com um antigo namorado e enquanto o filho fuma seu baseado, a filha engravida do namorado da irmã. Que família linda e feliz aquela que mostra os dentes e os lábios e parece que sorri.
“Vamos tirar uma selfie”. Amigos se misturam, se apertam, se abraçam, sorriem enquanto quem estica o braço tenta enquadrar todo mundo. “Que turma alegre e unida. Quisera ter amigos assim”. O que quase ninguém sabe é que o amigo de azul cantou a mulher do amigo de verde que tem um caso com a irmã do colega de preto que, mesmo com a esposa ao lado, não deixa de alisar as pernas da única amiga solteira, mas que está de caso com o chefe casado que ainda não tinha entrado na história.
“Você precisa atualizar a foto do teu perfil. Vem cá, deixa que eu tiro pra você”. Sorriso aberto, vasto, amplo, reto, branco. 1 curtida. 2 curtidas. 15, 38, 57, 132 curtidas. “Queria poder sorrir assim”. “Ah que vida boa essa pessoa deve ter”. “Também, nunca passou dificuldade”. Mas depois da foto o vazio de saber que por trás do sorriso bonito morava um sorriso vazio e desalegre.
Mostramos cada vez mais o que somos cada vez menos e isso faz mal pra todo mundo. Talvez a falta cada vez maior de humanidade nas pessoas venha disso de nos querermos super-humanos, nos disfarçando de imunes às tristezas, às vilanias e às cobiças, ao invés de reconhecermos que às vezes invejamos e choramos também. Se a pessoa acha que é a única que sente dor e não se quer a única a sentir dor, talvez até goste de saber da dor do outro.
Não podemos aceitar que seja assim. Precisamos de verdade para conosco. Precisamos voltar a sorrir de verdade, por inteiro, com o corpo todo. Um sorriso que comece nos olhos, passe pelos lábios, sinta na pele, no tato, no âmago e de coração. Um sorriso que seja de verdade.
Mentir que somos felizes, não nos faz mais feliz. Só nos faz ainda mais tristes.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Desejo por Glória, Graça e Vitória vale muito menos do que amar a Vida

Eis que tendo ido certo dia à rua por já não suportar a própria casa (e nem a própria cara), mas adorar a Lua-na sua alcova despudorada, um renovado Pedro viu a Branca, lembrou a Clara e olhou sua volta, feliz como se logo ali visse a Rosas de outrora, a Jasmim que foi embora ou a Margarida que ainda insiste em voltar. Logo ele. Pedro. 
A verdade é que Pedro sempre quisera mesmo a Glória, mas a Glória não alcançou. Se não lhe houvera a Glória, logo desejara a Vitória (que pra ele era quase a Glória), mas nem a Vitória alcançou. Pedro não conseguia nada. 
Resoluto em sua sanha, Pedro quisera achar alento e sentir-se em Graça, mas como nem Graça se via em Pedro, lá ficava Pedro todo sem graça. A vida de Pedro se moldara em poucos anos e pouco mudara em muito tempo. E lá estava Pedro, sem graça, vitória e nem glória.
Pedro, que sabia o valor do desprezo, não se queria nem solto, nem preso, nem queria saber-se homem frio. Escorado ao poste da praça, viu o tempo correr depressa até a hora parecer sem tempo. 
Pobre Pedro que tudo o que quis fora aquela Linda, ou o acalanto de Branca, ou abraço de Graça, pudera o sabor de Vitória, talvez o afago de Glória, ou mesmo o desabrochar da Rosa tão querida. Pedro quis tanto a tantas, que nenhuma das muitas lhe quis.

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O tempo passou mais depressa. O relógio acelerava, os ponteiros corriam aos pulos, dias que só eram mais curtos que as noites, semanas que pareciam sem fins e todos os dias pareciam o dia depois do dia que se perdeu. E Pedro nunca parecia ligar. Até um dia - chegara o dia! - que Pedro desistiu da tristeza e achou companhia. Decidiu amar e que não importa como fosse,  amaria mesmo a Vida na sua forma espontânea de amar e de repente esqueceu o que quisera um dia e já nem parecia lembrar. Sua vida era Vida e Pedro, enfim entendeu, que presente maior do que a Vida ninguém lhe daria, nem jamais lhe haverá.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Supercalifragilistiexpialidoce¹

Muitas vezes nos deparamos com situações em que não sabemos o que fazer ou o que dizer. Não raro, somos tomados pelo assombro do impensável, do improvável ou do inconfessável e todas as saídas possíveis se sugerem impossíveis ante a nossa falta – torçamos, temporária – de ação.
É quando, então, no melhor estilo, “se não tem remédio, remediado está”, tendemos a procurar por aquilo que deveria ao menos ser o mais simples a se fazer em situações assim: continuar a viver.
Como bem sugere a canção que dá título a esse texto, se não há palavras ou se a situação é desconfortável, ficar calado é uma péssima decisão. O melhor é respirar fundo, se concentrar e enfrentar a situação da forma mais impressionante que houver, a fim de que se faça (ou por ora, pareça) ainda mais capaz e importante do que é.
A falta de ousadia (e até mesmo a falta de um certo “descaratismo”) é uma razão das mais profundas a causar o desmerecer de nossas vidas repletas de sua cada vez mais risível (in)dignidade. Mesmo sabendo que hoje a vida já não é o que foi e nem muito menos o que será, mas sim que a vida é o que está sendo agora (esse ser, projetando o “vir a ser”), nós insistimos nas várias lamentações que nada acrescentam e em nada ajudam. Ao lamentarmos, revivemos e revivendo permitimos que sejamos a nossa influência mais nefasta, já que a dor, a raiva e o rancor que sentimos não são mais a que nos causaram, mas a que nós mesmos insistimos em fazer doer.
Se a vida vive, ela tem que seguir. Viver é como estar a navegar o alto-mar sem âncoras. Ficar parado sem que se saia do lugar não é uma opção e nem uma possibilidade. As ondas (que na vida são os dias que se seguem e os acontecimentos que os completam) vão sempre nos empurrando, talvez até nos atirando contra alguma pedra – essa, sim, imóvel – mas que seria possível evitarmos.
Se a vida vive, ela tem que seguir. Não vive-la, nem enfrenta-la não traz resultados, nem nos mantém acima da altura rasa dos pés dos demais. Não! A inação é a causa do afogar profundo como quem cai à água de mãos e braços presos e apertados, não podendo nadar, só podendo se sentir afundar, afundar, afundar e afundar...
A situação é difícil, mas não tanto que não possa mudar.
O fato é inusitado, mas nada com que não se possa lidar. Algumas vezes até o que é definitivo muda e tantas e tantas vezes basta  apenas  querer fazer com que tudo fique mais e mais diferente de tudo quanto houve ou de tudo quanto ainda há.
Então não fiquemos quietos, falemos o que for necessário falar, mesmo quando não soubermos o que é certo dizer. E mesmo se quem ouve não entende, nem isso é motivo suficiente para fazer calar. Na dúvida: supercalifragilistiexpialidoce[1] (ou "docisaliestilixgifragicalirecor", mas aí seria ir longe demais, não acha?!)[2]


[1] Extraída da canção “Supercalifragilistiexpialidocius” dos “Sherman Brothers” para o filme “Mary Poppins” da Disney.l.

[2] Pergunta da Mary Poppins para o Bert no filme cujo título é o nome da personagem principa

sábado, 17 de janeiro de 2015

Na Indonésia há crimes que não compensam. Já no Brasil...

Dentro de algumas horas o brasileiro Marcos Archer Cardoso Moreira será executado por força de decisão judicial do Supremo Tribunal da Indonésia, culpado que é pelo crime de tráfico de drogas que, naquele país, é punido com a pena capital.
Há algumas semanas a mídia vem noticiando a desdita desse senhor de 53 anos e que se encontra preso naquele país desde o ano de 2003. A essa altura, grupos de direitos humanos (e humanos que se querem mais bondosos do que a própria bondade) esperneiam contra a decisão que dará cabo à vida de quem não tem a menor relevância.
Postagem no blog do jornalista Ricardo Setti da Veja (leia aqui) datada de junho de 2012, citando reportagem do "Jornal Já" traçou um perfil do condenado, dando conta de que ele traficou ao longo de 25 anos, sempre contando com a complacência materna em relação aos seus maus caminhos e que, endividado com as despesas hospitalares assumidas por conta de um acidente de asa-delta, tinha nessa leva de drogas para Bali o momento da sua redenção financeira.
A mesma reportagem dá conta de que o mesmo sentenciado à morte mantinha apartamentos nos EUA e na Holanda, além de residência em Bali (destino final do carregamento de drogas que lhe custara a liberdade e dentro de instantes a vida.
É compreensível que haja grupos de pessoas de bem que são contra a pena de morte. Nós podemos discutir a justiça ou a legalidade de uma decisão, assim como podemos julgar a justiça e a razoabilidade de uma norma. No entanto, no caso em questão, não se está condenando um inocente, nem alguém que desconhecesse as regras, mas sim, alguém que visava lucrar US$ 3,5 mi entrando com drogas num país que conhecia muito bem e onde ele sabia que a pena era de morte.
Talvez acostumado com um país em que a lei condena a 30, mas a pessoa não precisa cumprir nem 10, Marcos Archer não acreditava que teria o destino que lhe assombra os últimos dias e, principalmente, as últimas horas. Mas, em que pese a incoerência de um país que financia o terrorismo ser intolerante com as drogas, o brasileiro, se deparando com um governo eleito prometendo uma política de intolerância com o tráfico, está descobrindo que a impunidade que se tem no Brasil não acha similaridade em todo e qualquer lugar.
E ainda por cima precisamos assistir uma figura lamentável como o Sr. Marco Aurélio Garcia criticar – em nome da Presidente da República – a lei de outro país, sugerindo o rompimento de relações diplomáticas em razão da recusa da clemência daquele país, como se estivéssemos falando de alguém que dignifica o nome do Brasil na história e no exterior.
Marcos Archer morrerá porque a lei diz que ele deve morrer. Ele morrerá porque sabia que a pena para quem comete o crime que tentou cometer era morrer. Ele morrerá porque não há nenhuma razão em sua biografia que justifique tantas interseções por sua vida. Ele morrerá porque assumiu o risco de morrer.
Talvez a questão que fica para os que assistem as circunstâncias de sua morte seja: é melhor ver uma lei tida por dura ser cumprida ainda que a despeito do que muitos aceitam ou que se relativize todas as leis de modo que a única certeza jurídica de uma nação seja a da sua insegurança?
Deixemos de lado as leis internacionais e as expectativas postas sobre ela. A soberania de um país ainda é a principal norma a vigorar em sua ordem interna e a Indonésia é soberana.
Há milhares de quilômetros de distância assistimos a execução de uma lei (e de um criminoso) atestando que ali na Indonésia o crime de tráfico não compensa. Será que algum dia, no Brasil, o crime deixará de compensar?

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

O mundo ainda é grande (pequena é a nossa forma de pensar)

O mundo “lá fora” é muito mais do que o mundo da gente.  Apesar de essa ser uma observação mais do que óbvia, algumas pessoas parecem participar de certa dificuldade de aceitar essa verdade e julgam-se no direito de julgar o mundo dos outros com base no mundo em que se prenderam a si, acreditando de forma bastante pia, que as escolhas que se fizeram deveriam servir de modelo para as escolhas que outros se farão.
Um médico não deve achar que no mundo tudo é medicina. Da mesma forma, um jurista não deve achar que o mundo é só Direito ou um religioso achar que tudo é metafísico. Assim como um matemático não pode achar que tudo é lógico ou um psicólogo achar que tudo é inconsciente, o certo é que tudo de um é nada perto de tudo do todo.
Cada indivíduo com suas próprias circunstâncias e o mundo continua. O grande barato dessa história toda está no fato de sermos diferentes e podermos achar espaço para todas as nossas diferenças. Sempre há espaço.
Vejam, as pessoas até podem ser muito parecidas, mas serem parecidas não é serem iguais, de modo que o que é bom pra um, o que serviu pra esse um, o que agrada a esse um, pode ser desprezível pro outro que viveu diferente, cresceu diferente, aprendeu diferente e, principalmente, se sonhou diferente.
Dois irmãos, mesmos pais, idades muito próximas e escolhas completamente diferentes e isso porque existem várias formas de ser alguém.
Esqueçam seus sonhos para o outro e apoiem o sonho do outro para si.
Quantos pais julgam mal seus filhos porque os filhos se quiseram diferente de seus pais? E de quem é a culpa? Dos pais é claro. Antes de acharem que sabem o que é melhor pro filho, deveriam procurar entender o que filho sonha pra si e ao invés de desestimulá-lo, ensiná-lo o quanto é possível viver bem simplesmente vivendo bem e não tendo que ser “alguém”.
A ditadura do sucesso obnubila os futuros. Estabilidade, bom salário, boa posição e muitas vezes infartos precoces, depressões mais e mais fortes e uma miséria interior que parece sem razão. Ao mesmo tempo, aquele que juntou menos, se disciplinou menos, está vivendo mais, amando mais, sentindo mais e se permitindo até ser mal entendido por quem acha que o que vale é o que se ajunta e não o que se soma.
Há espaço para todas as diferenças, todas as profissões, todos os sonhos, todas as vontades, tudo o que for – socialmente – entendido como bom. E até pra outras escolhas.
E não nos façamos reféns do nosso medo de errar e nem inseguros pela crítica de quem nos quis dominar. Antes, permitamo-nos mandar às favas o passado e suas companhias quantas vezes seja preciso, recomeçando de novo e de novo, sempre vivendo quantas vidas forem possíveis em uma vida, não nos preocupando com a próxima que não se sabe e que ainda não há, mas com a única que por algum tempo ainda haverá.
Não nos queiramos modelos. Não sejamos quem impõe, mas quem facilita; não quem sufoca, mas quem apoia; não quem desanima, mas que estimula; não quem nega, mas sim, quem sabe o valor e a importância de se ouvir e se dizer sim.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Do jeito mais difícil...

“Deixa estar para ver como é que fica”. Esse parece ser o principal lema da maioria das pessoas. Não importa o quão descontente elas estejam, é raro que pareçam inclinadas a mudar sua forma de ser.
Até mesmo eu fico tentando me provar o contrário do contrário quando, a bem da verdade, acho mesmo é que não existe mais ou menos na vida. Mais ou menos é o disfarce do ruim. A gente pode até ficar tão acostumado com o ruim que não faz nada pra melhorar, mas daí a querer convencer que “tirando o que tá ruim, tá bom”, corresponde àquela tentativa inútil de repetir uma mentira pra ver se ela se torna verdade.
O mundo está cheio de pessoas sorrindo um sorriso vazio. Você assiste lábios bem abertos num sorriso que tinha tudo pra ser bonito, mas que logo é traído pelos olhos que não são alegres como o sorriso quis supor.
Você vê casais que trocam beijos sem paixão, abraços sem afeto, carinho sem vontade, tudo como se fosse um script a ser cumprido em razão de uma satisfação de outros que não sejam aqueles que já nem sabem mais porque aceitam o menos.
Será que não está na hora de dizer chega? Será que não está na hora de se admitir que a hora nunca é errada quando é vivida, mas é sempre perdida quando se insiste em não viver, quando se insiste em não fazer o que se deseja, o que se quer, não fazer acontecer? Quanto tempo até que não haja mais tempo? Há tempo... sempre há tempo enquanto tempo houver.
A gente sabe o que quer. A gente sempre sabe o que quer. A gente sabe o que não quer. A gente sempre sabe o que não quer. Mas cumprindo à perfeição nosso papel de nossos piores adversários, achamos que nossas certezas sobre nós mesmos estão erradas e que há outro alguém muito mais capaz de nos entender, completar e compreender melhor do que nós que nos sabemos, nos conhecemos e dominamos o que pensamos, apesar disso ser justamente aquilo que mais calamos.
A esposa sabe que acabou. O marido sabe que não devia ter começado. O empregado sabe que merece mais e o sócio sabe que trabalha sozinho, mas todos permanecem unidos em nome de qualquer coisa que no fim é o medo. Não aguentamos mais, mas insistimos com o mesmo. Não queremos mais, mas continuamos com o mesmo. Já desistimos, mas não encerramos. Tememos.
O engraçado é que a vida da gente – e das gentes – nos ensina que ela sempre continua, não importa se acertamos, se erramos, se nos alegramos ou se nos arrependemos, mas mesmo assim, a gente tem medo. Medo de não ser a melhor decisão, de não alcançarmos uma melhor conquista ou de não encontrarmos um caminho melhor e então continuamos no caminho que não nos leva a lugar nenhum, vivendo uma vida que, a  cada escolha que não reflete nossa real ambição, só faz perder vida.
E daí morremos. Morremos cheios de arrependimentos inúteis por não termos feito o que desejávamos sob a desculpa fajuta de termos vivido exatamente o que podíamos, mas sem que tivéssemos alcançado nada daquilo que nos queríamos.

Mudar não parece ser fácil, mas acostumar a viver mal é viver do jeito mais difícil. 

domingo, 30 de novembro de 2014

Independência ou morte

 "... eu não tenho medo da morte. O que eu tenho é saudade da vida."
Vinícius de Moraes

A única certeza que temos na vida é a de que vamos morrer. A partir disso, há as outras certezas que insistem em ter, mas que ninguém tem direito de ter nenhuma. É por isso que os religiosos, muito embora concordem que todos vamos morrer, também acreditam que teremos outras vidas. Para alguns, outras vida vividas nesse plano aqui, reencarnadas  em busca de alguma auto-justificação. para outros, uma vida a ser gozada numa eternidade modorrenta, onde uma multidão de pessoas repetirá exaustiva e eternamente (?) um mesmo cântico de adoração que não faz tanto sentido assim.
E daí chego em um ponto em que preciso alterar minha afirmação acima. Nós não temos apenas uma certeza. Além do fato de que vamos morrer, também podemos ter a certeza de que temos essa vida que estamos vivendo. E essa vida é certa, qualquer outra é apenas esperança.
E daí nasce a minha grande inquietação. Há um mundaréu de pessoas que parecem ignorar que têm uma vida para viver e então dormem acordadas. 
Dormir acordado é pior do que sonhar acordado. Dorme acordado aquele que tem vontade de fazer, mas não faz porque tem medo. Dorme acordado aquele que tem vontade de terminar, mas não termina porque não sabe como será julgado pelo que decidir. Dorme acordado aquele que tem vontade, mas renuncia por causa de um dogma ou por causa de um Deus. Dorme acordado quem sabe que a vida passa e apenas assiste a vida passar.
Tenho verdadeiro horror a quem não se permite viver os desejos, as vontades, as loucuras, as revoltas. Cada vez mais as pessoas são menos. Cada vez mais as pessoas são de mentira. Não falam o que querem, não pedem o que desejam, não revelam o que sentem. Querem viver sob a segurança de que nada pode dar errado e, por essa razão, não fazem nada a fim de que algo dê certo. Insistem em 0 a 0 (e nem pensam em tentar, pelo menos, o 1 a 1).
Sem contar quem pensa que o mundo está perigoso e, então, o melhor é não sair de casa, não se expor, para que, então, não morra cedo e viva muito. Mas viva muito o que? O tédio de um tempo que passa, mas que não acrescenta?
Quer saber? Morrer é uma merda, mas não viver é pior ainda. E é daí que eu acho que antes não morrer, mas se o oposto for não viver, antes, então, morrer aos 32 como o Cazuza, aos 34 como o Senna, aos 36 como o Renato ou aos 27 como Hendrix, Joplin, Morrison e Winehouse, do que aos 80 como alguém que além de não fazer tudo, também não fez nada.
As pessoas ficam presas às neuroses paternas, maternas, aos medos a que lhes são sujeitados desde cedo, aos dogmas que lhe são impostos desde sempre, regras que não sabem de onde vêm e, quando menos percebem, estão imersos numa depressão que não sabem de onde veio, mas tem a razão óbvia de não se terem vivido, mas apenas lamentado.
Assim não pode. É imperioso que em determinada altura da vida mandemos nossos pais, avós, pastores, padres, compadres, ídolos e heróis, às favas (no bom sentido e com todo o carinho). A receita deles é para eles e não nos pode ser refém. E ainda que possam estar certos, devemos errar com convicção ("errar rude" como diria "o deus da tribo da Polinésia" da Porta dos Fundos clique aqui).
Ora, se inferno existe, ele já começa aqui na terra quando a vida é menos do que deveria e a vontade é mais do que a ousadia. 
Se danação realmente há, ela já se mostra desde quando nos exigem muitos nãos sem que nos deem qualquer sim. 
Se outra vida há, ela não tem que ser melhor do que essa porque essa foi ruim. Ela tem que ser melhor do que essa porque nessa aprendi mais de mim.
Mas eu não sei se há inferno, se há danação, reencarnação ou seja lá o que houver para depois que esse corpo deixar de respirar. Sei que não gosto da ideia de morte e que me é confortável ansiar um futuro eterno em que eu sempre exista, de preferência próximo de uma divindade que em tudo me susterá. 
Sei que tenho essa vida de agora de cujo ônus maior a me desincumbir é fazer viver valer a pena. E não há vida que viva bem se vivida sob o medo de morrer. Morrer não é um problema, é um fato. Deixar de viver é que deixa tudo um saco. Então dance, transe, trance, canse e alcance o infinito que nasce dentro de você. Faça isso tudo só por você que, no fim de tudo, é só quem deve importar pra você. 
O epílogo do texto é de Vinícius. O problema não é deixar de viver depois de ter vivido, o problema é não ter mais tempo pra viver o que nunca teve coragem de se permitir ter vivido.
O prólogo será do Chico Anysio e sua sabedoria de quem entendeu a importância de aproveitar a vida que Deus - segundo, agora, a minha concepção - lhe deu: 
"Eu não tenho medo de morrer, eu tenho pena." 

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Cada vez menos diferentes. Cada vez mais desiguais

Os rumos que a sociedade, que o convívio social, vem tomando me preocupam muito. Aparentemente todos têm a forma certa de fazer algo que o outro faz. Só que desses todos, cada um tem a sua e considera errada todas as outras que são diferentes da sua.
Hoje todos são críticos de tudo. Todos entendem de tudo. Todos discursam e pedem mais humanidade, mas ninguém está disposto a enxergar o que é ser humano.


As pessoas, perdidas no orgulho sem razão que sentem de si mesmas, não parecem enxergar a dominação velada a que vêm se sujeitando a partir do momento em que não toleram que o outro tenha seus próprios pensamentos e sua própria forma de encarar a vida e o mundo.
Um ator beija uma mulher que não é sua esposa e o país entra em polvorosa, todos se sentindo aptos a condená-lo, ainda que a própria esposa não tenha tornado pública qualquer intenção sua nesse sentido;
Um Procurador da República reclama da inércia das forças armadas frente ao desolador quadro das políticas no país e é afastado para responder processo administrativo;
Um cientista responsável por um dos maiores acontecimentos dos últimos tempos aparece com uma camisa estampada com várias imagens de mulheres e o mundo - literalmente de todas as partes do mundo - mesmo sem conhecê-lo intimamente já lhe taxa de sexista;
Uma mulher resolve programar a própria morte a fim de evitar um fim sofrido em razão de uma doença terrível e lá está a patrulha pronta pra dizer o quanto ela está errada;
Um jornalista demonstra falta de apreço por determinada região do país e logo chega a turba pronta para linchá-lo como se fosse seu dever abrir a boca só pra falar o que um dado grupo quer ouvir.
O engraçado é que a moda agora é dizer que os juízes não são "Deus". Só que o tempo todos nos colocamos na posição de divindade capaz de saber de tudo sobre tudo e sobre todos. E estamos tão confiantes de que realmente o sabemos, que nos apressamos em apontar, censurar, condenar.
Em todos os cantos, em todos os lugares alguém está procurando um fato qualquer pra transformar em polêmica. Não sei se para desviarem a atenção de si, cada vez mais e mais pessoas apontam para o outro. É sempre o outro quem erra, quem faz ou fala bobagem. Eles - os que falam - não. São sempre morais, sempre éticos, sempre corretos. Só não se sabe segundo a cartilha de quem.
As pessoas estão chatas. O mundo virtual aproximou muita gente que não tem razão pra estar perto e então, cada qual a partir da sua casa, mas pensando conviver com o mundo, acha que entende das pessoas, das gentes, quando já é bem pouco aquilo que entendem de si mesmos.
Aquela história de se colocarem no lugar do outro, de entender suas razões, suas circunstâncias, não existe mais. Estão todos ocupados demais colocando-se em diferentes lugares, se transformando em diferentes pessoas para agradar todos os diferentes grupos e acabam sendo todos, mas não sendo ninguém. E quanto menos somos nós e mais somos o que esperam de nós, menos entenderemos que a última coisa que deveríamos é tentar que sejamos todos iguais...

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Incômodo: uma sociedade que não se permite plural

Ao contrário do que a propaganda insiste em afirmar, ser diferente não tem sido normal. Ser diferente tem sido motivo de escárnio, de indignação, de diferentes injúrias e diferentes formas de discriminação. E não me refiro às diferenças de raça, sexo ou gênero. A diferença que mais vem sendo atacada é a diferença de opinião.
As opiniões nunca pareceram incomodar tanto. Por alguma razão que só o tempo passado explica e o tempo futuro confirmará, vivemos uma época em que as opiniões alheias têm sido ora motivo de acréscimo de autoestima, ora motivo de execração do outro.
Nesses tempos atuais, as pessoas gozam na satisfação de ouvirem pensamentos que se assemelham ao seu ao mesmo tempo em que se encolerizam quando ouvem algo que não são capazes de considerar. Assim, a impressão que se passa é a de que estamos todos sempre armados, sempre preparados para o patrulhamento de pensamentos que não nos dizem respeito. E se nos insurgimos contra nosso “adversário intelectual”, raramente é com um intuito de paz ou de reflexão, mas apenas com uma tentativa (in)consciente de escorraçá-lo pelo simples fato de ter ousado falar.
O silêncio, pouco a pouco, vai tomando conta das pessoas. É cada vez mais raro acharmos quem fale o que pensa ou quem assuma um desgosto, quem confesse pecado ou um preconceito ou até mesmo uma vontade de que tudo seja ao contrário do que é e que a sua vida seja o contrário do que ele mesmo se fez... é cada vez mais improvável que alguém admita um pensamento que seja. A opinião pública “o suicidará”.
De repente o mundo virou uma grande vitrine em que somos o departamento de marketing responsável por convencer o mundo de que somos melhores uns que os outros. Somos pessoas físicas, cidadãos, pagadores de nossos impostos, donos do nosso direito, mas agimos como se fôssemos Pessoa Jurídica, dependente de menos juízo para que alcance uma melhor reputação. A opinião pública passa a ser tão relevante que nos envergonhamos de cada nuança de diferença que nos percebamos.
Mais do que nunca nos queremos a aparência de mais do que todos. Queremos “ser” (mais o certo é “parecer”) os mais devotados à nossa religião, os mais engajados à nossa ideologia, os mais participativos da nossa comunidade. Só que tudo isso só valerá, desde que sejamos reconhecidos como tal.
Como não queremos que vejam nossos defeitos e tememos que não se nos notem as nossas qualidades, corremos a alardear os defeitos alheios, a rebaixar o que é bem visto, menoscabar o que é autêntico, a vilipendiar a quem simplesmente se deixa ser. Logo, somos o primeiro inquisidor da maioria e nosso objetivo é o de que seja menos julgado por eles, julgando-nos a nós mesmos como “o grande maioral”.
Enquanto isso, a sociedade envelhece anos em poucos dias. Não há novo que resista à patrulha que não permite nada e condena tudo. Até há quem pensa, mas prefere calar; há quem queira, mas prefere conter e há tantos que sonham, mas não há coragem pra ousar.
E daí se um gosta do preto, outro gosta do branco, um gosta de mato, outro gosta de asfalto?
E daí se um fotografa o céu, se outro não repara a lua, um ouve música e alguém prefere o silêncio?
Por que o meu jeito tem que ser o jeito do outro? Por que se precisa de música pra dançar, razão pra sorrir e motivo pra chorar? Quem nos deu o direito de censurar, condenar e ridicularizar? Se não há um jeito único de ser, também não há – nem deve haver – um único jeito de pensar.
É... vivemos tudo errado. A semelhança não une, mas separa, justamente porque somos únicos e  não devemos ser iguais. Forçarmos uma igualdade fingida reforçar uma sociedade cada vez mais docente e cada vez mais hipócrita. Quanto mais queremos parecer uns aos outros e pros outros, mais é a distância que nos separa uns dos outros.