segunda-feira, 1 de setembro de 2014

104 anos de Corinthians - e o Parabéns é todo nosso que somos a torcida incomum de um time sem igual

A minha resposta é sempre a mesma para quando me perguntam: “mas você é corinthiano?”. Com todo o prazer e sinceridade do mundo, eu respondo: “graças a Deus!”
E eu agradeço a Deus mesmo. Ser corinthiano é um dos maiores prazeres de uma vida cheia de prazeres. Seja rindo, chorando, xingando ou comemorando, ser corinthiano é achar em mim mesmo a essência mais definidora e definitiva de mim.
As demais torcidas têm raiva da nossa torcida porque nos afirmamos mais amantes do nosso time do que eles são do time que os têm. Mas os fatos falam por si e aquele que certa vez falou que “todo time tem uma torcida, mas o Corinthians é  uma torcida que tem um time”, não poderia ter sido mais feliz.
O Corinthiano é diferente. Ele vai pra ver o time jogar. Ultimamente, acostumado que está a vencer, tem se feito mais intolerante aos momentos de poucas vitórias ou de muitos empates. Mas, em seu íntimo, sabe que a vitória é um mero acessório do principal que é ver seu time entrar, jogar e ganhar.
E não há torcida igual.
Não há torcida capaz de encher uma cidade inteira, com 500 ônibus saindo de São Paulo tremulando bandeiras pela via Dutra, numa chegada tão apoteótica, que fez até mesmo Nelson Rodrigues arrepiar.  E se parece pouco, também digo que não há torcida capaz de dar a volta ao mundo e ir ao Japão (mais de 20 mil) só pra ver seu time jogar. Mas não foi só jogar... foi ver seu time jogar e ser campeão.
Ah... aquele Corinthians campeão absoluto do Brasil em 2011, da América em julho de 2012 e do mundo no fim desse mesmo ano. Parecia até que os Maias acertariam. Eram muitas vitórias de um time que calou um país inteiro que torcia contra, mas que tinha uma nação inteira para por ele cantar e gritar: Vai Corinthians!
Cássio, Alessandro, Chicão, Paulo André e Fábio Santos; Ralf, Paulinho, Danilo e  Jorge Henrique;  Emerson e Guerrero. Antes do Guerrero, Liedson. E apesar de todos esses, ainda um abusado, tal de Romarinho, que fez “La Bombonera” não passar de um “saco de balinhas”. Todos regidos por um Tite que, finalmente, se fez grande e entre os grandes se assentou.
Ainda assim, fico com o que canta um corinthiano dos mais geniais, o grande Toquinho: Ser corinthiano é ir além de ser ou não ser o primeiro. Ser corinthiano é ser também um pouco mais brasileiro.
Ah, Corinthians... são 104 anos de história, de conquistas, de aprendizado e de amor. Maior amor, maior história e o melhor da vida! Parabéns, Corinthians! Parabéns pra todos nós que temos você e somos de você...

Em 2011, ainda antes da Libertadores e do Mundial de 2012, escrevi, por ocasião dos 101 anos do Corinthians, o texto que traduz de forma definitiva o que é, pra mim, ser “coríntia”. (clique aqui)

Então, só me resta dizer: Vai Corinthians!”

sábado, 30 de agosto de 2014

Dormir ou viver? Ficar ou fugir? Correr ou deitar? Viver sem sentir, nem amar até despertar. E aí? É por aí?

Era daqueles dias em que se acorda sem precisar fazer nada. A ideia de passar as próximas 72 horas na cama lhe era das mais sedutoras. Não tinha planos, não tinha família, não tinha vontade, não tinha nada. Mas de repente tudo isso parecia estranho demais.
Não que fosse dos mais festeiros, dos mais presentes ou dos mais afetivos. Sempre mais ocupado consigo, pouco lhe importavam as convenções e as expectativas. Bebia quando queria beber, dormia quando queria dormir, satisfazia-se quando queria se satisfazer e, pra tudo isso, nunca achou qualquer dificuldade que lhe fosse maior do que a que ele mesmo se representava.
Era daquelas pessoas altivas, indiferentes, mas que prestam atenção. No seu íntimo se ria de todos, pareciam banais. Ao mesmo tempo, não lhes negava qualquer apoio, uma palavra ou um aperto de mão. Acostumado a ser dos que são procurados, desaprendeu a procurar. Suas chegadas sempre só menos caladas do que suas saídas. Não se sabia perceber, nem ser percebido, tampouco sabia se era alguém cuja presença alegrasse ou a ausência se fizesse sentir. Mas se era solução de tantos, por que não seria, ele mesmo, a solução de si?
Lia tudo. Lia livros, lia olhos, lia almas, lia corpos, lia mãos. Assustava. Parecia sempre saber mais do que revelava, mas para si e consigo, sempre pensava saber menos do que precisava. Curioso de todas as vidas, buscava em quem via o que não era mostrado, o que era calado e qual era a razão do constrangimento de se permitirem ver... qual o medo que as pessoas têm de que saibam quem elas realmente são? Ele sempre sabia. Presunçoso, mas com suas razões...
Mas estava naqueles dias em que se acorda sem precisar fazer nada e ele não precisava fazer nada. No entanto, de repente ele precisava fazer algo, e fazer algo era fazer tudo, era viver tudo, experimentar tudo, não deixar nada de fora desse tudo que nascia de dentro de alguém que até então não precisava fazer nada.
Pela primeira vez a cama foi ambiente inóspito. Logo ali em que viveu seus melhores momentos seja dormindo parado ou acordado em intenso movimento, agora lhe parecia como a cama do faquir que ele não era. Levantou-se.
Depois de muito tempo, deu-se com o Sol. Já nem lembrava que Sol havia, não que não enxergasse a luz do dia, só não parecia mais forte do que o conjunto de trevas que o ocupavam desde si.
Só que agora havia cores, via cores. E eram cores naturais. Diferente do que ele era. A natureza que se lhe apresentava – ele bem sabia – existia desde antes dele e ali continuaria quando ele não fosse mais, mas era diferente. Ele via mais do que enxergava no todo do tudo que reparou. Teve sede e viu-se quando à margem da água cristalina que precisou - e se deixou - beber. E não é que até o reflexo turvo da água que se movia lhe mostrava outro alguém que ele já não sabia que era?
Depois de muitos anos, quis correr. Depois de muitas noites, quis amar. Depois de muito tempo, quis ser tudo de novo aquilo tudo que não poderia ter deixado de ser.
Se antes tudo parecia tarde, agora tudo parece estar no momento, esse parece ser o momento. É urgente, sim, mas é o momento. O momento do novo, do ousado, do abusado, do excedido e do fim do soberbo que, ao menos em arrogância, pouco fez questão de ser comedido.
Ouvia as outras vozes que antes pareciam tolas. Agora só parecem o que, realmente, são: vivas.
Assistia outras pessoas que antes pareciam “apenas” vivas e via, agora, o que elas, realmente, são: gente.
Assistiu aquela gente e descobriu-se quem realmente é: mais um.
Mas não se sentiu mal por ser mais um. O mais um lhe fazia parte de um grupo que pensava que não tinha e lhe unia a uma história que apenas sabia que existia. Agora era mais um que queria sentir o que já há muito tinha calado, enterrado e que pensava ter até matado, mas que tão-somente dormia.
Quis ligar para os números que já não tinha; quis ouvir as vozes que há tempos não ouvia e mesmo sem qualquer sentido, quis até montar ao cavalo que nunca teve e escalar o monte que nunca viu. De repente era mais um dentre tantos que, mesmo se sabendo um, não se queriam ser apenas esse um. Lembrou-se de quem era, antes de ser quem se fez. Lembrou que amou, lembrou que gostou, que quis, foi querido, gostado, amado... e odiado também, mas agora sentia e já fazia muito que não lhe era normal sentir.
(E de repente se pergunta: Será culpa desse sol que sempre houve, mas que parece pra ele só ter nascido agora? De onde vem a luz que lhe sangra a escuridão e lhe permite que renasça vida? Vem do infinito e desde ele entra ou já estava guardada no peito de quem por medo de amar, ao autoexílio condena? Foi a noite que perdeu a graça ou ela nunca passou de jazigo que guardava um corpo que vivia sem vida?)
O tempo passou, mas não acabou e, então, se há tempo e se há vida, faça-se da vida a vida que tem que ser. Dança, corre, salta, beija, ama, deflora, namora, permite, se deixa (até boceja), mas logo deseja e busca e acha e toma e se embevece seja de amor ou de cachaça.
Até a ressaca que há muito esquecida, agora surge como uma parte da vida que não pode passar. Tudo urge, mas urge com calma...
Calma... os dias não lhe roubaram experiência, só fizeram-lhe cético. Já não sucumbe aos primeiros impulsos. Ainda não levantou. Não ligou para todos os números, nem ouviu todas as vozes. Não subiu nenhum monte a cavalo. Mas agora sentia... até ausências e quereres que não mais tinha, agora ele tinha.
Levanta-se da cama, espreguiça-se, deixa a cama agora já é passado (ou começo de futuro), por ora, só deixou de ser cenário. São 72 horas para fazer tudo, inclusive nada. Mas quem disse que fazer nada não pode ser tudo o que se tem para fazer?
Talvez mais tolerante, talvez menos ranzinza, talvez mais permissivo e menos possessivo, apenas sabe que algo mudará, mas não tem pressa. O tempo que tem é o tempo que lhe basta acabe ele daqui a muitos anos, acabe ele na semana que vem. Quanto à espera? A espera até agora lhe fez consciente de que viver é bom quando se tem consciência da importância que tem a vida da gente, mas que no fundo, a vida da gente – de toda a gente – é bem pouco importante pra vida dos outros que têm a sua própria vida assim como a vida da gente.

Mas é por aí?

Insistência X Persistência

Nem sempre é das tarefas mais fáceis diferenciar insistência de persistência.
Sem dúvida os mais vitoriosos são aqueles que não tiveram problema em ser persistentes na busca pelos pódios que se queriam. Enfrentaram medos, contratempos, desânimos e desanimadores sem perderem o foco que já tinham definido desde antes de sua caminhada.
Já o insistente é aquele que às vezes não sabe o que quer  ou mesmo já até sabe que nem quer, mas ainda assim, continua repetindo os mesmos caminhos, as mesmas falas, os mesmos erros.
A persistência é o segredo de qualquer sucesso; a insistência é o motivo da maioria dos desacertos.
Insiste-se no que não nos pertence. Persiste-se no que ainda nos pertencerá.
Muitas vezes insistimos em sermos quem não somos e, nisso, repetimos vários comportamentos que nos afrontam, fazemos e aceitamos toda uma sorte de escolhas que nos ofendem e erramos, de novo, os mesmos erros que um dia já nos fizeram mal. Insistir nem sempre é muito inteligente. Nem com a gente, nem com o outro (mesmo que esse outro, por algum tempo, também tenha sido parte da gente).
Que sejamos persistentes pode ser nossa melhor qualidade.
Que sejamos insistentes pode estar entre os nossos piores defeitos. Mas insistimos! Insistimos em não ouvir que nos quer bem, em não houver até mesmo aquela voz interna que nos faz intuir que o caminho que escolhemos está longe de ser melhor ou insistimos em dormir tarde e acordar ainda mais tarde e com isso render menos ou nem mesmo render.
Insistimos em fazer contas que não saberemos como vamos pagar e, se o dinheiro não é um problema, corremos os riscos de insistir em termos mais coisas do que aquelas que vamos, mesmo, um dia precisar.
E no mais das vezes, ocupados com o tanto que insistimos com o que é errado e com o que não nos acrescentará, esquecemos de persistir no caminho que nos levará para onde sabemos que devemos e podemos chegar. Ocupados com a insistência num relacionamento que não funciona, num estudo que não satisfaz, numa profissão que não dá prazer, esquecemos que o relógio não para, que o tempo não para e que, com isso, os dias vão passando e vão formando semanas e meses e anos e, quando pensamos que devíamos estar mais perto de sermos quem poderíamos ser, é que nos damos conta e enfim nos percebemos cada vez mais e mais distante daquele que, não importa o que insistirmos, jamais seremos.
E na exata medida que insistimos em tudo que de nada nos serve é que também insistimos em não persistir.
Todos nós temos sonhos, temos desejos, temos força, inteligência e vida. Mas muitas vezes falta a coragem de enfrentarmos nossas próprias resistências. Temos tudo o que precisamos para que alcancemos tudo o que queremos, mas talvez no mundo de hoje, o que mais nos falte é o que mais se carece para ter persistência: que nos haja paciência.
Estamos cada vez mais ansiosos, impacientes, achando que a nossa vida, no que tinha pra ser vivida, já se viveu e que todo o nosso passado não passa de tempo perdido, não realizado. Mal damos valor ou nos importamos com toda a vida, experiência e conhecimento acumulados.
Na ânsia de chegarmos aonde julgamos que já deveríamos estar, esquecemos que a vida é um processo a ser experimentado e não definido, recomeçado e não concluído.
Erramos quando olhamos o outro e presumimos que seu sucesso é maior do que o nosso fracasso tão retumbante.
Erramos quando pensamos que não estarmos “lá” onde pensamos, é estar no lugar errado em que não deveríamos.
Em compensação (nos) acertamos quando concluímos que o melhor lugar para estarmos é no conforto de sermos nós mesmos, líderes de nossas ideia e ideais, convictos de nossas escolhas e responsáveis por cada uma de suas consequências, sempre cheios de uma maior disposição para o novo que a vida sempre nos fará chegar.
Se até agora tudo que foi feito foi errado, a solução é mais do que simples: não insista.
Fez tudo o que devia e o resultado foi outro, viveu tudo o que devia, mas o cenário mudou? E daí? Pouco importa. O que importa é não parar de buscar a si na vida que só pode ser vivida por quem enxerga através dos olhos que nossos corpos emprestam. E é aí que a gente recomeça, refaz, inicia tudo de novo e, de preferência, de um jeito todo novo, sem que sejamos a cópia mal feita baseada na pouca lembrança que temos de momentos que nem sempre foram nossos melhores momentos.
Assim, se você tem um alvo, um sonho ou um desejo, só há um segredo – que é tão certo – que jamais vai falhar: persista sempre no que é certo, jamais deixando de buscar aquilo que você tem certeza de que é tudo o que você pretende alcançar!

Somos todos Barrabás

Nós somos todos Barrabás. Éramos nós que estávamos condenados a uma morte sofrida e cruel. Éramos nós que deveríamos ser sujeitados ao vitupério e ao vilipêndio da humilhação e da condenação. A condenação era nossa, a morte era pra ser nossa, porque o erro é nosso, a transgressão é - e sempre vem sendo - nossa e se a nossa condenação era certa, não tínhamos outra escolha senão esperar a sua execução.
No entanto, enquanto aguardávamos a execução da nossa sentença de morte, eis que nos é anunciado que, na verdade, agora estávamos livres e que o preço da nossa liberdade foi comprado pelo sangue de outro que, mesmo sem que se tivesse achado qualquer culpa sobre si, aceitou calado morrer no nosso lugar. Nele não havia erro, nele não havia crime, nem muito menos pecado, mas nele havia um amor imensurável, um amor incomparável, um amor mais amante que o amor mais amado.
"Ele toma sobre si as nossas dores", cura as feridas da nossa alma resultado que são das nossas transgressões e iniquidades. Feridas que nós mesmos nos causamos separados de Deus numa vida de pecado e que agora nos cobrava, não como rendição, mas por punição,  o preço da nossa própria vida e à medida que as horas passavam e o momento da morte chegava, a certeza da execução nos causava uma inevitável agonia e aflição. Nosso sofrimento era lógico e tinha razão de ser... Mas de repente o castigo não foi nosso, mas foi dEle e esse castigo dEle nos trouxe uma paz que sequer merecíamos ou fizemos por onde ter.
Lá estávamos nós, todos éramos Barrabás aguardando a execução de nossa sentença, aguardando o momento de nossa morte. Lá estávamos nós presos à correntes de uma prisão que, por nossa culpa, fizemos por merecer, mas no instante em que parecia o nosso fim, ao invés de sermos levados à morte, nos é anunciado que há um Jesus de quem a vida se oferece em lugar da nossa vida pra que, com a sua morte, nós tivéssemos - se não por direito, mas por graça - uma nova vida... As correntes caem, as portas da cela se abrem, somos postos de volta sob a luz do sol e, de longe, bem de longe, vemos alguém sofrendo o sofrimento que era nosso. Nosso corpo não carrega uma cruz, nossas costas não foram açoitadas e nem se mostra a nossa pele moída como castigo. Não. Estamos soltos. Nossos pulmões exalam um ar puro, leve, não carregamos a marca do criminoso, nem o julgamento da turba. Somos pessoas sem culpa, naquele momento em que outro sangue se derrama, nem mesmo criminosos somos mais. Estamos livres, novos, prontos pra recomeçar.
Mas então pensamos (e temos que pensar): se um justo que nada devia, mesmo que ausente qualquer acusação, se cala e aceita morrer em meu lugar para que com isso eu viva, se Ele me dá uma segunda chance de ter vida, eu preciso fazer por merecer a vida que me veio a partir da morte daquele que é, "verdadeiramente o Filho de Deus" que "tira os pecados do mundo", fonte inesgotável de toda a vida, fonte inesgotável de todo o maior amor. 
Se agora eu sei do seu flagelo que deveria ser o meu flagelo, é minha obrigação, no mínimo moral, ser-lhe grato em palavras e com atitudes. Já não posso mais ser o mesmo que eu era quando mereci ser condenado.
Se eu reconheço que eu fui liberto porque Jesus (que não tinha erro, não tinha mentira, mas só tinha a verdade, já que Ele é a verdade) aceitou ser condenado, sofrer e morrer em meu lugar para que eu, agora, mais do que vivo, fosse livre de qualquer grilhão, eu não devo passar um só dia sem olhar pro alto daquele monte e nem olhar pra crueldade da morte naquela Cruz, sem abaixar meus olhos e de coração sincero dizer: muito obrigado Jesus!
"Ele era Jesus Cristo e 'todos nós' somos Barrabás."

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

A morte me fascina (justamente por não saber o que nela há)

Desde a primeira vez que assisti "Ghost", há muitos, muitos anos atrás, tenho uma certa fascinação pelo instante seguinte ao momento da morte. A cena da alma do Sam (Patrick Swayze) perseguindo seu assassino sem se dar conta que atrás dele estava seu corpo sem vida nos braços da Molly (Demi Moore) sempre foi muito impactante na minha memória.
Ao longo dos anos, sempre que sei que alguém morreu, fico me perguntando se há ou como será um "outro lado" e se a morte seria simplesmente como uma porta que atravessamos.
Ao saber do infarto do Zé Wilker e do Luciano do Valle, fiquei imaginando: será que ficaram surpresos quando "acordaram" numa outra vida? Ou será que até agora eles não sabem que morreram?
Quando penso nas overdoses do Phillip Seymour Hoffman, do Corey Monteith, do Heat Leadger ou da Whitney Houston, fico pensando: será que eles despertaram "sãos" do outro lado, viram-se inertes por uma dose excessiva de drogas que se aplicaram?
E o Paul Walker (ou até mesmo o James Dean)? Como será que foi morrer queimado e, "saído" do corpo que lhe carregava a alma, saber que ele não seria mais quem ele sempre foi.
Lembro que quando o Maurice Gibb morreu na mesa de operações, pensei: de que forma será que ele soube que estava morto e não cantaria mais com seus irmãos do Bee Gees?
Ao saber do suicídio do Robin Williams fiquei imaginando como será que foi pra ele morrer e, de repente, descobrir que a morte poderia ser o fim da dor da vida, mas não o fim de alguma consequência pelo que se viveu.
Ao saber da morte chocante do Eduardo Campos fiquei imaginando como foi o instante seguinte ao que ele se encontra com Deus, ou com um deus, ou com Jesus, não sei... quem nos espera? quem nos avisa? quem nos conforta?
E da mesma forma tantas e tantas pessoas que gostamos e nos deixam e, se é que há, precisam atravessar pra esse outro lado e lá achar que lhes guie para onde tenham que ir, experimentar o que lhes resta experimentar.
E daí eu lembro do Goulart de Andrade no Roda Viva da Cultura dizendo que esteve morto por um tempo ao sofrer uma parada cardíaca e que não tinha nada do outro lado...
Enfim... a experiência da morte me fascina e me desperta uma grande curiosidade. Mas penso que seria melhor se eu soubesse me fascinar assim pela vida que ainda "me há". 

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Por um fio: façamos mais para que a vida não seja menos

A partir do aparente suicídio do ator Robin Williams, fico aqui pensando no tanto de gente que se suicida. A depressão é uma realidade muito dura, forte e cada vez mais presente (e silenciosa). Talvez estejamos cercados de pessoas que se sentem com a vida devastada, sem valor, sem perspectivas, julgando-se miseráveis sem que nos pareça que haja alguma razão aparente para tanto.
Muitas e várias vezes nem mesmo essas pessoas sabem a real razão de sua angústia, mas ela está ali, lhes atormentando e falando com uma sutileza e um poder de convencimento, que faz com que as pessoas se afundem mais e mais. E nós muitas vezes estamos do lado, vendo a pessoa se afundar, mas sem que nos demos conta do quão profundo é o buraco onde ela já está.
Há cada vez menos solidariedade no mundo e cada vez mais indiferença. Isso é triste. Sob o manto de qualquer justificativa fajuta, as pessoas se convencem de que não precisam dar conta dos sentimentos, ao menos, das pessoas que lhes interessam. Não ligam pra saber como vai, não mandam uma mensagem pra dizer que gosta de quem gosta. Não. Deixam sempre pra depois esse gesto tão simples e que as muitas pessoas precisam dele para agora.
Pense em quantas pessoas você gosta; quantas também gostam de você. Quantas vezes você diz pra elas que gosta delas? Quantas vezes fez com que elas se sentissem bem por (muitas vezes até sem saber) terem feito bem para você? Qual foi a última vez que você ligou sem ter assunto, mas só porque queria saber se a pessoa precisava de algo ou se ela precisava de você? As pessoas que são importantes pra você, realmente sabem que são importantes pra você? Você já disse? Ou acha que ela já sabe pelo simples fato de ter que saber? Pense nessas várias ou poucas pessoas e permita-se ser para elas e deixa que elas sejam para você. E se cuidem. Cuidem-se uns dos outros. Não se deixem cair pra onde não seja mais fácil voltar.
Se ame, diga. Amar é para ser sentido, vivido, dito e, se tudo correr bem, correspondido. Mas o amor que se ama ou o sentimento que se gosta, esses não se devem calar.
Sejamos a força que falta pro outro, tragamos o sorriso que a pessoa não vê razão pra sorrir, que se ache em nós o apoio que, não raro, também servirá para que não caiamos.
Mas façamos. Não sejamos indiferentes ao mundo. Não punamos o mundo por acharmos que não somos importantes pra ninguém. Todos o somos, se não para todos, para muitos que assim como gostamos deles, também gostam de nós.
Então não deixemos pra depois. Procuremos o amigo de quem não sabemos há muito tempo, alegremo-nos se ele estiver alegre, curemo-lo se sua alma estiver doente, mas façamos algo... façamos mais, viver precisa ser mais do que assistir passar mais um dia. Se estamos no mundo, que esteja, pois, em nós a causa do mundo ser um mundo melhor.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Sombras... (só eu que falo, e até ouço, mas cansei de falar)

Preciso seguir, mas só vejo sombras.
Quero seguir, mas só vejo sombras.
Só eu posso ir, mas só vejo sombras.

Não sou quem vai só
E me esperam qual luz que desfaça as sombras
Mas só vejo sombras.

Por que vêm comigo?
Sim, eu chamei, mas por que disseram sim?
Sim, eu gostei, mas por que querem demais?

Sou navegante sem navegador e ao tempo de um sou todos
Sou a bússola, o astrolábio, o quadrante e até a minha nau
Sou o que goza, amarra e pune; sou quem faz tipo de mau.

Sou navegante que se navega e tenta ondas que parecem altas e perfeitas
Mas sou navegante que se navega e que sempre atravessa a onda e chega
Qual a graça de saber levar o mar?

Pensei em rezar para que se fossem as sombras
Mas só vejo sombras sobre quem pensava ter luz
No fim vemos todos nossas sombras e nos apegamos todos à ideia da luz.

Não me entendem enquanto os entendo e até quis me legitimar
Mas aos olhos que não sabem nem ver
Fui mais sombra que as sombras que há.

Conheço seus segredos, mal se escondem assim
Mas deixo-os crer no meu próprio degredo
Logo eu que, mesmo entre eles, não saio de mim.

Tentei rezar e sofri
Tentei sofrer, mas rezei
Rezar e sofrer é como se deve viver?

Não vivo pra morrer
Mas se morro é porque vivo
E então ouço a música que me acalma... é como um hino

Destinados todos a um só e mesmo final
Mal sabemos em vida se há a vida ideal
E de ideia em ideia me provo que o jeito que foi não era o jeito que era.

Mas sou eu que falo
Sim, ouço! Mas sou só eu que falo.
De tanto que falo não gozo em falar.

Mas preciso dizer, guiar, fazer, dominar, possuir e ter
Levo, faço, domino e quando me sou quem só eu sei (culpado)
Arranco pra fora desejos que se deviam guardados.

Sou quem controla o ritmo e o instante
E quando crio e narro em sussurro o cenário que faço
Gozo em tirar um suspiro abafado (safado).

Gozo é ousar até além do que me esperam
É assombrar os que pensam que o limite é aqui.
Não vejo limites que não possam partir.

Mas sou eu que falo, só eu que falo
Só minha voz em que se repete a velha história
E o que é novo pra uma não me passa de memória.

Alguém me tire de mim e me faça calado
Senta em meu rosto e me faça abusado
Debruça e alcança meu corpo estalado.

Sabe quem faz e quem faz sabe
Quem ensina aprende e quem aprende cresce
Mas sou só quem domina o outro corpo que agradece.

Venha-me mais.
Mais de mim pra mais dos outros
Mais de mim pra mais de mim.

Quero o conforto da hora errada
Quero o erro que atrapalha
E a demora do dia distante que dispensa o depois.

Enquanto isso, sou só isso...
Navegante sem navegador,
Náufrago ilhado num deserto repleto de dor.

Tentei rezar
Mas só eu que falo
E eu já cansei de falar...

07/2014

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Que haja amor... mais amor!

Não são todos que entendem os encontros que nem eram pra ser, mas que são e continuarão. É o destino de ser bom não importa como seja.
Em cada novo encontro um apaixonado quer explicar a sua paixão por quem lhe quer apaixonada e fica sempre em busca da melhor expressão pra que nela também arda a febre que não queima, mas fustiga. Eu não queria ser esse amante que não sabe dizer, mas há tanto que tenho em mim e queria, que me arrisco a escrever:

“Eu queria saber escrever o que você quer ler, mas eu não queria saber escrever o que você quer ler. Eu quero simplesmente escrever o que você goste de ler porque foi feito pra você.
Eu queria saber te fazer sorrir de propósito, mas eu não queria saber te fazer sorrir de propósito. Eu quero simplesmente um sorriso teu sem razão, mas que seja culpa de alguma (minha) participação.
Eu queria que o sol durasse menos, queria que a lua durasse mais, mas eu não queria nem que o sol durasse menos e nem que a lua durasse mais. Eu quero apenas que o que te gosto me dure o quanto você gostar e quiser fazer durar.
Eu ainda queria desejar tudo de mais lindo, mas acontece que eu já desejo tudo de mais lindo quando desejo teu sorriso e todo o melhor que surge quando se é mais atrevido.
Eu queria ser o minuto que só tem sentido quando há a hora, o segundo que dura mais e o tempo que não para e parece que corre quando me há você, desde antes até agora... você sempre sendo a hora.
Eu queria guardar um momento que já tivesse sido, mas eu não queria guardar um momento que já tivesse sido. Eu quero o momento que ainda será. Será?”

Seja como for, sei que em algum lugar (que nem sei se tem) já deve ter tido esse amor pra alguém e continua tendo e continua sendo, amando, crendo e cedendo. Ou até mesmo já até terminou, mas pelo menos alguém amou. Se a vida sempre continua, ela só termina praquele que pouco amou ou nem se permitiu amor. Quem foi amado ainda existe, persiste e ainda insiste em ser a lembrança doce que tanto acalanta a vida de quem, sem perder tempo, se deixou amar.
(Alguns rimam amor com dor. Não sabem de nada. Pra mim, a única rima que se faz com amor é viver. Amar é continuar vivo, é desafiar o corpo que se pensa extinguido, é desafiar a morte sorrateira, aquela que acontece aos poucos e, com a força juvenil de uma experiência plena, tornar a fazer vida daquele jeitinho gostoso e que faz a vida viver).
Pois que haja amores. Assim, no plural. Muitos amores, porque o amor que há na gente não pode faltar e nem tem que sobrar. Dê o excesso, faça lambança, faça bagunça, faça amor pra fazer mais amor e ser mais amada de tanto amar. Amar não cansa... e nem pode cansar.

domingo, 22 de junho de 2014

Uma só mulher guarda em si muitas mulheres e essas muitas mulheres são (todas) a mesma mulher – Vicky Cristina Barcelona

“(...) Eram amigas íntimas desde a faculdade e tinham os mesmos gostos e opiniões sobre muitas questões, mas quando se tratava de amor, seus pontos de vista eram opostos. Vicky não tinha tolerância à dor, nem sede de combate. Tinha os pés no chão e era realista. De um homem ela esperava seriedade e estabilidade. Ficara noiva de Doug porque ele era decente e bem-sucedido e entendia a beleza do compromisso. Por outro lado, Cristina esperava algo bem diferente do amor. Relutantemente, aceitava sofrer como um componente da paixão e se resignava a pôr em risco seus sentimentos. Não saberia dizer o que queria ganhar arriscando suas emoções, mas ela sabia o que não queria, e isso, era aquilo que Vicky mais prezava”.

É com essa narração em off que nos são apresentadas as duas personagens principais do filme “Vicky Cristina Barcelona”.
Vez ou outra eu resolvo escrever sobre algum filme que gosto e esse filme é, seguramente, um dos que mais gosto. O primeiro fato importante sobre esse filme é que ele traz a assinatura de Woody Allen e isso, por si só, já é uma grande coisa. É certo que esse filme já não pode ser considerado um filme recente, ele data de 2008. Mas na noite passada, após assisti-lo pela quarta ou quinta vez e, ao amanhecer, tendo comentado sobre ele, me ocorreu a vontade de vir escrever um pouco sobre.
A razão dessa vontade foi uma percepção de que Cristina e Vicky, na verdade, são a mesma mulher que dá vida às suas diferentes personalidades, cada qual sendo o equivalente ao id e ao ego, respectivamente, à sua outra metade. E se a intenção foi essa, o filme é – no meu entender – ainda mais genial.
Talvez uma das questões mais desafiadoras da humanidade desde seus tempos mais remotos seja: “afinal, o que querem as mulheres?”. Quanto mais se pensa a respeito, mais distante parece que se fica de uma resposta que seja minimamente correta. Tanto assim que a maioria dos homens desiste de saber o que as mulheres querem para se bastarem com a sua realidade de que eles querem as mulheres, sem que se importem em se importar sobre o que elas querem. Mas eu não consigo não me importar com a mulher e com o que lhe diz respeito, não me restando alternativa outra senão pensar, pensar e mais pensar.
E então eu volto ao filme. A mim me parece que Allen foi genial quando nos mostra que nem mesmo as mulheres estão muito certas do que querem e que, não diferente dos homens, são produtos (ou vítimas ou protagonistas) de sua própria circunstância e é por isso que a mesma mulher ama mais a um e é mais amada por outro, sendo diferentes mulheres para seus diferentes homens mesmo sendo uma só. O corpo da mulher esconde muitas almas e muitas mulheres que se revezam em ser quem lhes parece apropriado conforme aquilo que lhes move e comove.  E é aí que vejo Vicky e Cristina como a personificação das diferentes personalidades de uma mesma mulher e que ganha em complexidade quando, sendo a outra, precisam conviver não só com o que veem de si mesma vivendo no corpo da outra, como, ainda, a personificação de suas consciências futuras nas demais personagens do filme que, mais velhas e mais experimentadas na vida, não conseguem mais disfarçar a frustração de serem a principal falha da vida que se desejaram.
Vicky é a parte da mulher que sabe o que quer, que sabe que quer uma vida estável, com um companheiro que a ame e a admire e que lhe escute antes de decidir. Quer a casa no subúrbio sem a preocupação se haverá o dinheiro para a hipoteca. Quer a liberdade para cursar seus cursos, para decorar sua sala, educar os filhos que serão a consequência da vida perfeita que se imagina e tudo isso mesmo que à custa de jamais experimentar um êxtase capaz de justificar cada escolha dessa mais pela emoção do que pela razão. Não se importa se o marido não é o melhor amante, nem o mais ousado ou divertido. O que lhe importa é que ele esteja lá, como uma peça importante de um tabuleiro que ela armou para não perder (ainda que não aspire ganhar).
Cristina não. Cristina é a parte da mulher que espera é que sonha com o que lhe arrebate. Aquela mulher que não acha tão absurdo esperar que um príncipe chegue num cavalo (ou numa limusine), lhe beijará o beijo que lhe retirará o chão e fará amor com a volúpia de um deus grego que desce do Olimpo para adorar uma mortal e premiá-la com a sua poderosa semente que faz nascer uma vida diferente de tudo que se conhece no mundo, numa exclusividade que ela não pede, mas numa intensidade que lhe permita julgar sem qualquer outra igual. Cristina sabe que não quer o mais ou menos, que não quer o previsível, que não quer o que todos acham que ela deveria querer para ser feliz, mas sim, que ela quer sempre mais e mais e mais.
E tudo isso fica perfeitamente perceptível quando surge a personagem Juan Antonio, uma artista plástico que demonstra interesse em ambas (ao ponto de, no primeiro encontro com as duas, convidá-las a que se juntem a ele em sua cama). Quando Juan Antonio surge na história há a perfeita fusão nas duas personagens e elas nos mostram que devidamente estimulada, a mulher muda quem é por aquele que lhe pareça merecedor de que ela seja o que, muitas vezes, nem ela se sabia capaz. Aquela que era noiva e amava o noivo e o pacote oferecido por ele, parecendo sempre incapaz de qualquer ato irracional, entrega-se ao misterioso sedutor que não lhe oferece nada além daquela noite que não se repetirá e que não merecerá nem uma ligação nos próximos dias. Já a outra que aceita o que a vida lhe oferece, mais e mais, no convívio com aquele mesmo homem, vai se mostrando inclinada a rever suas vontades e, quando menos espera, já vive com ele como se fossem um casal que vive a estabilidade de um casamento só balançado e atrapalhado com a chegada abrupta de uma ex-mulher muito mais passional que aquelas duas que na verdade eram uma: Maria Elena.
Maria Elena seria uma capítulo à parte do que seja ser mulher. Maria Elena é toda estímulo, é toda intensa, é toda querer aproveitar cada segundo como se fosse o último porque, pra ela, cada segundo pode ser o último. Maria Elena é a mulher que pisa no homem que ama, mas que depois rasteja seu perdão; Maria Elena é a mulher que fere e que goza em ser ferida; é a mulher que se doa sem pedir que haja uma troca, até que, de repente, quebra a casa porque precisa ser vista por quem acha que a esqueceu. Maria Elena é uma paixão furiosa e louca, como loucas são muitas mulheres que apaixonadas só não perdem a razão porque ela há muito lhes deixou.
Há, ainda, a personagem de Judy, talvez o principal alter ego do alter ego de Vicky. Surpreendida por Vicky beijando o sócio de seu marido, ela a procura e faz sua dolorida revelação: “amo meu marido, mas não sou mais apaixonada por ele há muito tempo” e, assim, sente-se como a mulher que julga que – qual a mãe que deixa de comer seu último pedaço de pão para que morra no lugar do filho – na sua renúncia de si mesma espia seus pecados ao manter o laço matrimonial, mas para tanto, perfuma seu corpo com o perfume do adultério ao imaginar que, assim, disfarça os sinais do apodrecimento de si.
Ah... como não ser tomado por uma certeza de que as mulheres são a mais pura expressão da incerteza? Não como se querer definir a mulher como uma só mulher, ela é várias. Tantas que nem ela sabe. Mas, pergunte pra sua ou pra outra o que ela quer e ela já quis e ela te dará uma resposta e te esconderá várias outras, porque dentro dela há várias mulheres se querendo feliz e muitas delas (quase todas) não são pra você, mas para outro. E é isso que ela não diz. O homem se angustia porque quer um controle que não tem, nem pode ter. Sua mulher que lhe ama hoje pode esconder um outro amor mais forte, mas que ficou pra trás no instante em que ela escolheu dar espaço pra uma outra (dela) ser amada e amar. Ficou pra trás, mas não morreu. Apenas dorme no esconderijo de todas as mulheres que vivem dentro da sua mulher. Misteriosa mulher...
Enquanto isso, a roda da vida gira e essas mulheres (que no fundo são as mesmas mulheres) na distância desse homem que se reveza entre ser a constante e a inconstante de cada uma, vão voltando ao normal. Vicky, apaixonada por seu artista, casa e permanece casada com seu noivo tedioso. Cristina, exasperada de seu artista, segue sozinha em rumo a tudo que não seja o que ela não quer e, todas elas – sendo a mesma – vão em busca da próxima emoção que lhes mostre a delícia de ser mais de uma mesma mulher... 

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Parabéns, FHC... 83 anos

Hoje o maior presidente que o Brasil já teve completou 83 anos de vida. Em seus 08 anos de governo, Fernando Henrique Cardoso estabeleceu as diretrizes de governo que pautaram e possibilitaram as iniciativas econômicas que deram certo no Brasil. 
Em que pese o "acartilhamento" a que o atual governo tenta submeter a grande parte dos seus incautos seguidores, sempre preparados para repetir sua doutrinação sem qualquer valoração crítica, mas com a raiva dos que tentam convencer com o grito, FHC não diminuiu as riquezas do Brasil. Antes, preparou o Brasil - viciado por séculos de descaso e mau uso da res pública - para os desafios do tempo vindouro ao seu. Seja na telefonia, na exploração dos recursos minerais ou mesmo no transporte, continuássemos reféns do sistema vigente, estaríamos muito mais atrás no desenvolvimento que nos falta.
Isso tudo sem falar no controle da inflação, ainda que a um grande custo pro país e pra sua popularidade. Pai e fiador do Real quando ministro, FHC enfrentou desafios e adversidade globais que macularam os últimos meses de seu governo, mas sem nunca sair do posto de estadista e de grande defensor da república e das suas instituições.
Cumprido seu papel, viu-se gratuita e moralmente perseguido pelo sucessor revanchista e delirante, mas sempre soube honrar o país.
O tempo, maior juiz da história e senhor de toda razão, vem fazendo sua justiça a ele e nós, que colhemos o fruto de sua coragem e disposição, o saudamos e nos congratulamos. Longa vida e que volte ao cenário, colaborando no despejo desses que apenas apequenam e destroem o Brasil...

terça-feira, 17 de junho de 2014

Segundo jogo da Copa-2014: que bom que não precisa gostar

Mais um péssimo jogo do Brasil (que vem jogando mal desde o fim da Copa das Confederações - aliás, como ocorreu com o time dos amigos do Dunga). E, pelo jeito, acabou a lua-de-mel da torcida com a seleção. Se é que houve. Pelo tanto que a mídia andou forçando essa copa goela à baixo do povo brasileiro, é pouca a empolgação e a confiança nesse time que tem mostrado pouco brilho, pouca vontade e um excesso de afrescalhamento.
Há anos o México vem mostrando que o escrete brasileiro não põe medo em ninguém e que basta que um time se disponha a jogar de igual, sem se apequenar, recuar ou tentar evitar uma derrota que, o Brasil simplesmente não joga. Como não jogou. Tirante um cabeceio daquele rapaz que tomou conta do noticiário por conta da mudança na cor do cabelo e um outro cabeceio do capitão do time, o Brasil foi completamente dominado por um México que não só destruía, mas sempre levava perigo à meta do goleiro do time do Canadá que disputa o acirrado campeonato norte-americano.
Passaram a semana inteira falando que um jogadorzinho mudou o cabelo. Qual a relevância? Isso fez jogar melhor? Não, pelo contrário. A bola parece que queima no pé do rapaz que, muito embora diga que não quer ser o melhor do mundo, mas sim ser campeão, não tem tocado, não tem marcado e parece querer resolver sempre sozinho.
Neymar ainda é um bom jogador que talvez um dia venha a ser craque, mas não é o dono do time. Precisa jogar em grupo e pelo grupo. Ninguém passa pro Fred e só quem tem chamado a responsabilidade é o David Luiz e o Luiz Gustavo. O resto, mal, mal, mal...
E outra, vai ficar difícil se for pra jogador ficar chorando toda hora que tocar o hino nacional.
Um técnico cada vez mais neurastênico, dado a coicear jornalistas que contestam suas escolhas mas, principalmente, suas teimosias. Que vêm ao público lhe pedir que apoie incondicionalmente o Brasil, porque os jogadores precisam se sentir queridos pela torcida, mas que se recusa a dar explicações, recusa-se a ao menos ajudar que se entenda porque a bola não chega ao atacante, porque os volantes não conseguem chegar tocando a bola com qualidade ou porque os laterais nem apoiam e nem defendem.
Que bom que ainda não obrigaram a gente a gostar da seleção brasileira, porque tá difícil gostar desse time do Felipão (ou do Neymar).

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Tantos eus calados (ou a dor de morrer sem ser ou viver)

Olhos insones, no escuro, abertos, procuram o céu
Vêem apenas o teto em que não há vida ou luz.
Janelas fechadas, cortinas fechadas, portas fechadas
A alma também... e calada.
Sou meu próprio túmulo encerrado em meu túmulo que, com espaço, protege o mundo de mim.
A um só tempo (ou são todos os tempos?), dentro de um espaço menor que a dor de se ser
Morrem-me - morro-me! - aos poucos nas vidas que ousaram sentir diferente,
Ousaram querer, ousaram sonhar,
Mas precisam morrer, embora resistam e peçam "viver"!

Vivo! - mas dentro do túmulo que sou
Dentro da tumba que guarda o túmulo que me encerra
Dentro desse espaço que me abriga e que eu abrigo,
Que eu mostro, mas que me esconde e me tem
Mas que me esquece e me tranca (me tranco)
Passa, corre, descobre e gosta do que já não vai mais lembrar
E que será outro eu, talvez até com meu nome, outro homem destinado a não ser
Apenas se ser...
Só ser até deixar de ser sem nuca ter sido e partir e perder
Dentro do túmulo que é e abriga, que esconde e encerra
Mais um hospede futuro do mundo que é meu mundo
Em meio de um mundo indiferente à tantas faltas de tantos "eus"...


(madrugada de 16/06/2014 - 4 a.m.)

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Primeiro Jogo da Copa: e aquela história de “homem cordial”?


“Já se disse, numa expressão feliz, que a contribuição brasileira para a civilização será de cordialidade – daremos ao mundo o ‘homem cordial’. A lhaneza no trato, a hospitalidade, a generosidade, virtudes tão gabadas por estrangeiros que nos visitam, representam, com efeito, um traço definido do caráter brasileiro, na medida, ao menos, em que permanece ativa, fecunda a influência ancestral dos padrões de convívio humano, informados no meio rural e patriarcal.”

Assim, Sérgio Buarque de Holanda começa o trecho em que cunhou a expressão que lhe fez mais famoso, até que passasse de festejado autor de “Raízes do Brasil” a “pai de Chico Buarque de Holanda”, como ele mesmo, Sérgio, assumiu. O brasileiro seria o “homem cordial”.
O início dessa Copa do Mundo mostrou totalmente o contrário. Ao contrário do que possa parecer, não torço contra a Seleção Brasileira, apenas não consigo me empolgar enquanto torcedor de futebol. Claro que ficarei feliz em ver a exaltação do meu país, mas preferiria – sem hipocrisia – vê-lo se destacando em educação, cultura, saúde... Como acredito que 99% dos brasileiros, assisti a primeira partida da Copa do Mundo. Um jogo feio, truncado, nervoso e que contou com um erro decisivo da arbitragem marcando um pênalti que não existiu. De positivo, só o momento do hino nacional, mostrando uma união de brasileiros que, infelizmente, nem sempre é pro bem.
Futebol à parte, o momento que mais me incomodou foi a vaia da torcida brasileira para o time croata. E daí a gente vê que, pelo menos nessa geração atual de brasileiros, se há algo que não se pode dizer de nós, é que sejamos cordiais. No papel de país anfitrião, o mínimo que a torcida deveria fazer era aplaudir o time croata de modo a que se sentissem bem-vindos ao nosso país para disputar uma partida de futebol e não uma guerra. Mas cadê a hospitalidade. O curioso é que o próprio autor, a certa altura, afirma nesse mesmo livro “Raízes do Brasil”.
“Seria engano supor que essas virtudes possam significar ‘boas maneiras’, civilidade. São antes de tudo, expressões legítimas de um fundo emotivo extremamente rico e transbordante.”
Dentro desse jeito emotivo de ser, o brasileiro é desrespeitoso. E não adianta falar que estou generalizando se, no momento da vaia, foram mais de 60 mil pessoas vaiando. Eu continuo insistindo que o grande problema do Brasil são os brasileiros (basta ver que um brasileiro quebrou o dedo de um argentino que se recusou a soltar a bandeira de seu país) e quando eles – brasileiros – estão em grupo, ou é festa ou é balbúrdia, mais balbúrdia do que festa.
Sérgio Buarque de Holanda ainda disse que:
“No ‘homem cordial’, a vida em sociedade é, de certo modo, uma verdadeira libertação do pavor que ele sente em viver consigo mesmo, em apoiar-se sobre si próprio em todas as circunstâncias da existência. Sua maneira de expansão para com os outros reduz o indivíduo, cada vez mais, à parcela social, periférica, que no brasileiro – como bom americano – ter a ser a que mais importa. “
Vencer um jogo de Copa do Mundo sendo “ajudado” pelo juiz, é lamentável e se exaltaria o time e a sua comissão técnica se, ao invés de cinicamente dizerem que viram pênalti, que viram falta no goleiro quando não houve, que a arbitragem foi boa, reconhecessem que houve o erro, que não foi pênalti. Mas não. O brasileiro é o tipo que diz que ganhar roubado é mais gostoso ao invés de aproveitar pra gritar para o mundo que se o brasileiro vai às ruas cobrar o fim da corrupção é porque ele não transaciona com o erro, ele execra e acusa o erro e o mal feito, porque prefere as coisas limpas. Mas não é bem assim...
Xingam a presidente a plenos pulmões para o mundo inteiro ouvir. E não importa as divergências que se tenha com ela ou com o partido e governo que representa: ali era a instituição presidência da república que se encontrava e deveria ser reverenciada pelo povo. Não a Dilma Vana Roussef, mas a representante maior do Estado brasileiro.
O jogo foi ruim, mas a torcida foi pior.

terça-feira, 10 de junho de 2014

O sexo da Xuxa e o seu (ou nada melhor do que se assumir quem é)

É isso! No último sábado no programa "Altas Horas" a Xuxa finalmente se manifestou a respeito do filme "Amor Estranho Amor (1982)" de Walter Hugo Khouri, estrelado por Vera Fischer, Tarcísio Meira, Mauro Mendonça, Íris Bruzzi, Matilde Mastrangi e com uma participação dela em seu primeiro filme. 
Pelo que consta do enredo do filme, cujas cópias (quase todas) Xuxa consegue manter em seu poder, em fins da década de 1930, um menino de 13 anos é abandonado às portas de um prostíbulo onde sua mãe atende. Nesse prostíbulo, passa a conviver com diferentes garotas de programa, inclusive com uma jovem de 15 anos (Xuxa) que teve sua falsa virgindade leiloada. Em represália à forma como foi tratada pela mãe do garota, a personagem de Xuxa, resolve seduzi-lo em sua tenra idade. 
Penso que talvez a Xuxa tenha demorado até demais para se manifestar sobre esse filme que ela conseguiu até proibir de ser veiculado e, certamente, teve suas razões de fazê-lo. Contudo, condená-la por uma cena feita há 32 anos atrás, quando ela tinha 18 anos e interpretava uma garota de 15, é querer fazer fama na fama alheia. 
O deputado pastor que tentou lhe ofender na Câmara foi ridículo. E isso para manter o nível de respeito. 
Qual o erro da Xuxa? Ela não abusou de um menor, ela interpretou uma personagem num filme no qual ela nem era a personagem principal e filme esse que, todos que assistiram - eu só vi a cena em questão - dizem que é muito bom..
Claro que há aqueles que demonizam o sexo, que acham que erotizar a vida quando se lhe mostra como ela é e a pornografia são a mesma coisa. Nada mais absurdo.
"-Ahhh, mas ela até pousou nua..."
A nudez está presente desde o Éden (para aqueles que acreditam nele), pelo menos enquanto mito. A nudez é festejada como a perfeição, mas não a perfeição estética, e sim, a perfeição do espírito livre das amarras impostas pelos que não entendem que a vida é viver. A nudez é a natureza e as duas juntas, são Deus. Ou não? Quem mandou cobrir a nudez? Quem determinou que o corpo que nos mostra fosse o oculto de todo o mais?
Já quanto ao sexo, talvez seja o que há de mais presente no mundo (não por um acaso já somos mais de 7 bilhões de pessoas). Não sei por que razão as pessoas são mal resolvidas nesse assunto e se mostram sempre prontas a se ofender com quem não é. Acho justo que queiram manter suas vidas sexuais na privacidade de si mesmas, mas daí a doutrinarem e condenarem quem se permite ser livre sexualmente, julgando o que faz ou deixa de fazer, é de uma mesquinharia própria do ser humano.
Agora, existe uma forma corrente de se iniciar uma vida sexual? Ou não é verdade que durante muito tempo - e até hoje - é comum que um pai, um tio ou um amigo mais velho contrate uma profissional para que inicie o mancebo na arte da satisfação da carne? Quantas pessoas tiveram suas vidas sexuais iniciadas aos 13 ou aos 14 anos e quantas outras que já passaram dos 30 e ainda hoje não sabem porque o mundo continua se povoando (e à toda velocidade)? 
O nosso mundo é hipócrita. A pessoa reclama de permissividade, de licenciosidade, mas dá-se e refestela-se noites a dentro, das mais diferentes formas (vis para umas, prazerosas para outras). Impõem-se seus limites para si mesmas, mas não contentes, os querem impostos a todos os demais. Não sabem por que o outro gosta do que gosta, mas já o condena por gostar diferente do que ela gosta e tudo isso sob o manto de quem se acha melhor do que o outro porque mais decente, mesmo que tenha suas próprias indecências.
Mas o pior é que condenam a Xuxa como se ela, de fato, tivesse sido quem iniciara o rapaz nas artes do sexo. Condenam a Xuxa como se o filme fosse de verdade quando, na verdade, o que o cinema faz é retratar a vida e não a vida imitar a arte. E daí começo a achar que não é tão mentira quando um artista de novela diz que é agredido na rua.
Como se quer que o cinema retrate a sociedade, a vida, fazendo de conta que homens trabalham para serem honrados e não para impressionarem as mulheres? Ou que mulheres se pintam para receberem flores e bilhetes, e não para seduzirem? Como esperam ser levados a sério quando defendem que um filme beatifique todas as pessoas quando, na sua maioria, são dotadas de toda uma sorte de desejos e vontades só capazes de serem satisfeitas no encontro da carne que lhe receberá por sua? Isso é a vida desde o primeiro instante do mundo... a simbiose feita na vontade de "se completar ou de ser completado"...
As pessoas deveriam se ocupar mais dos seus gozos e menos da tentativa inútil de castração alheia. Mas ninguém quer ser castrado sozinho e, pra muitos, gozar nem deve ser tão bom assim...
É isso, Xuxa, se assuma! Se assuma e não se incomode com quem só sabe se recalcar...