sexta-feira, 11 de abril de 2014

Pelo buraco da fechadura

Algumas pessoas parecem subestimar a vida. Parecem preferir não reconhecer que a vida é um caminho sinuoso, cheio de curvas, de perigos e de necessárias mudanças de rota. É como se tivessem traçado um mapa que as levará para o destino que imaginam seja o que devem chegar. Quando, do nada, veem-se forçadas a não seguir por aquele caminho, logo pensam que vivem mal e que as coisas não são como são, porque não são como elas acharam que deveria ser.
Algumas pessoas parecem achar que as pessoas são (ou deveriam ser) o que elas mostram. Algumas pessoas parecem crer que o que se faz na superfície é o que se vive e se pensa no mais profundo de si. São pessoas que têm certezas escoradas naquilo que pensam sozinhas, muitas vezes baseado no que lhes levaram a pensar quando viviam o momento de inocência que se tem na infância.
Várias e várias vezes vi pessoas procurando reproduzir o conto de fadas dos seus sonhos na vida vivida no mundo real. E sofreram. Sofreram porque não entendiam que o príncipe com que sonharam não existe e que aquele que deveria ser, está longe de ser.
Não. O que as pessoas mostram – o que nós mostramos – está longe de ser o que elas são (somos). O que as pessoas são, geralmente está do outro lado da porta em que se trancam longe dos olhos de alguém. Daí a expertise do grande Nelson Rodrigues, o cronista da vida vista pelo buraco da fechadura mostrando que as pessoas não são um poço de virtude. Que nem todo marido traído é vítima de sua esposa, mas muitas vezes, cúmplice da traição. Que nem toda dama da sociedade anda de táxi, mas gosta do contato dos corpos suados de motoristas e cobradores da lotação. Que nem todo machão está livre de, na hora de sua morte, pedir o beijo de outro amigo machão ou que por trás de uma irmã mais nova pode estar um anjo negro capaz de toda sorte de perversão com o noivo da irmã.
E você? Quantas vezes você fez algo que não queria que ninguém soubesse, que não te seria honrado, mas mesmo assim fez? Quantos são os teus gostos que você pensa que ninguém entenderia, mas que te assanham a uma vida que é só tua e de mais ninguém? O que se veria de ti, se te vissem pelo buraco da fechadura da porta que se tranca atrás de ti?
E não se trata de não poder resistir. Todos podemos resistir ao que quisermos. A questão é que não fizemos questão de resistir. É como quebrar um regime. Você está há dias só no alface e, de repente, se depara com uma suculenta torta de chocolate. Não conseguiu resistir? Conversa. Você não fez questão de resistir porque o prazer de agora seduz mais do que a esperança de amanhã.
Ah, o buraco da fechadura que nos esconde dos olhos da censura e nos permite a maquiagem que nos mostre quem achamos que será aprovado por quem a aprovação não se deveria sequer fazer questão.
Pelo buraco da fechadura você vai ver que um irmão dorme com a mulher do irmão ou uma filha que deseja seu pai sexualmente
Pelo buraco da fechadura um pastor acessa sites pornôs, um padre abusa de uma criança e um bom marido goza com outro homem.
Pelo buraco da fechadura, a dama que se mostra fiel dá-se aos homens mais impensáveis e o velho frágil oculta a sanha devastadora de quem precisa consumir e ser consumido.
Pelo buraco da fechadura têm-se segredos, perversões e todo um colorido que faz com que a vida possa ser tudo, menos a previsão de que todos são iguais, decentes ou não. O senso comum não entende da vida. O senso comum não vive. Só atrapalha viver.
Pelo buraco da fechadura as pessoas são quem elas são. Nem certas, nem erradas... só gente.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

A dor de mudar ser preciso

Toda mudança é um rompimento. Rompe-se com o que se era, com o que se cria, com o que se pensava. Rompe-se. Rompimentos não são indolores. Não. Rompimentos são sempre abruptos, duros, mas também necessários.
Essa necessidade de mudança não costuma surgir de uma hora pra outra. Pelo contrário. A mudança tende a ser sempre postergada até o momento em que ela se faça inevitável. Por se saber abrupta, sabe-se que ela tem toda a condição de causar dor e, geralmente, se a dor puder ficar pra depois, ela ficará. A mudança, então, também.
Só que viver é estar em constante transformação. Eu não posso ter por objetivo chegar ao amanhã sendo o mesmo que hoje. Não posso ser daqueles que não são afetados pelo mundo a minha volta e que, não importa quanto viva, não importa quantos encontre e nem quanto experimente, continuarei sendo o mesmo que sempre fui.  Preciso estar sempre aberto a que me venha o novo e, a partir desse novo, preciso repensar cada passo da minha caminhada a fim de ajustar os passos que virão, corra eu o risco que correr.
Sim, porque a autoanálise é sempre perigosa. É fácil medirmos a vida alheia. É fácil querermos apontar os erros e os acertos das outras pessoas; mas nos defrontarmos com nós mesmos, nossas escolhas e nossas consequências, pode ser uma das experiências mais doloridas a que nós mesmos nos sujeitamos.
Ninguém gosta de estar errado e, muitas vezes, analisar-nos implicará em por vezes acharmos que hoje estamos mais errados que antes e por vezes descobrimos que antes estivemos mais errados que hoje. E é difícil saber qual desses erros é o mais desesperador. O tempo que se perdeu ou o tempo que se perderá...
Contudo, a vida que anda pra frente não pode ser refém das escolhas passadas. O que não deu certo, o que não faz bem, o que entristece pode – e tem – que ser deixado de lado. E isso é crescimento.
Crescer não é só o processo que se inicia na infância e percorre ao longo de toda adolescência e início da vida adulta. Se tornar grande não é um processo apenas físico mas, principalmente, mental e espiritual lato sensu. É continuar absorvendo o mundo, refletindo o mundo e construindo a mim como alguém que se sabe capaz de ser melhor para o mundo, aqui entendido desde o planeta Terra até a minha vizinhança ou a comunidade (socio-familar-religiosa) que me tiver por mais tempo.
Mas crescer dói. É o osso que enquanto cresce, estica a pele e rompe músculo que precisa se regenerar, cicatrizar e continuar irresoluto até o seu destino e, mesmo ali, continuar firme para cumprir sua função, mesmo precisando se curvar. Crescer é a coragem de se lançar no precipício da dúvida sabendo que muitas vezes, o percurso vale mais que a chegada.
O que nós precisamos mesmo é cumprir com a nossa função de continuarmos mudando. Precisamos parar de ter medo dessa mudança, mesmo que ela cause dor. Não posso achar que o mundo muda o tempo todo e só eu é que tenho que continuar o mesmo seja pelo motivo que for. Viver é natural. Mudar é viver. Viver é mudar.... sempre! Mudemos, pois...

segunda-feira, 10 de março de 2014

Meu sonho para as igrejas no Brasil*

Na medida em que tenho visto que as igrejas (as que me dizem respeito e considero como tais), mais e mais assumem uma posição de que faça o que eu digo e não teime em querer fazer diferente; 
Quanto mais eu vejo uma aparente (e conveniente) tendência em estimular comportamentos exteriores como forma de ter a conduta aprovada e menos vejo as pessoas preocupadas com o que há no interior dos que chamam de "irmãos"; 
A cada instante em que vejo mais e mais distanciamento e indiferença em relação a uns e outros e até uma disputa (e porque não torcida) por quem "cai" primeiro a fim de o outro se sentir confortável em poder "cair" também;
Quanto mais e mais vejo a apresentação (e prática) equivocada do que pensam ser o chamado pentecostalismo e essa maldita "teologia de vário tipos de unção", bem como essa mania de tentar humanizar Deus para tentar torná-lo inteligível, sem perceber que o Deus que o homem pensa para si e se lhe faz não passa de mais um ídolo e nunca chegará a ser o Deus que Deus é, mais me preocupo com a angústia que muitas almas devem sentir. Mas mesmo assim, apesar de tudo, tenho meus sonhos para as igrejas do Brasil...
Eu tenho um sonho para as igrejas no Brasil...
Eu tenho um sonho que um dia as igrejas (e algumas pessoas que adquirem certa posição de destaque dentro delas) vão deixar de se acreditarem (ou pelo menos de tentarem se mostrar) infalíveis e soberanas em relação à humanidade daqueles que nelas congregam e se preocuparão menos com a quantidade de membros e mais com a qualidade da mensagem que oferecem a esses membros segundo a necessidade de cada um;
Eu tenho um sonho que um dia as "igrejas" falarão menos e ouvirão mais. Sonho com que um dia procurem saber mais do que seus membros pensam, ao invés de simplesmente lhes determinar o que e como eles devem pensar;
Eu tenho um sonho que um dia as igrejas não mais considerarão todo barulho e gritaria como manifestação do "Espírito Santo", mas se lembrarão que se o Espírito é Santo ele age com ordem e não se manifesta para aprovar, mas sim para agir como Jesus (porque Eles são um): "com relação aos pecadores, em compaixão; com relação aos 'santos', em caloroso afeto; com relação ao sofrimento humano, na mais terna piedade e amor"**;
Eu tenho um sonho com uma igreja que não apenas saiba plantar para colher mais, mas que saiba cuidar para que não se perca quem já é de si;
Eu tenho um sonho de que as pessoas na igreja olhem menos para si e se preocupem mais com o amor ao outro e, se olharem ao outro, que seja para estender-lhe a mão e não para lhes apontar o dedo em acusação;
Eu tenho um sonho com uma igreja que explore menos o desespero e as fraquezas dos outros, que prometa menos o céu na terra, mas cuide mais em apresentar um Jesus que veio a Terra e pregou amor, caridade para a salvação e que subiu ao céu para nos aguardar onde é melhor do que a Terra jamais será;
Eu tenho um sonho com uma igreja em que as pessoas que duvidam não sejam censuradas, mas sejam ensinadas com amor e não como anátemas;
Eu tenho um sonho que um dia jovens não se emocionem com o que vem (e veem) de fora pra dentro, mas com o que sentem (e vem) de dentro pra fora...
Sonho com um dia em que o corpo será inteiro e caminhará junto, sem distensão, sem distinção, sem disputa por quem "aparece" mais ou por quem faz melhor, mas sim, numa campanha em que cada um se enxergue como membro de um mesmo "time" que luta junto para alcançar as promessas de um novo céu e uma nova terra. 
Mas será que sonho demais?

*texto livremente inspirado no discurso "I have a dream" do Rev. Dr. Martin Luther King Jr.
**trecho extraído do texto "God's Pursuit of Man", do Pr. A. W. Tozer.

domingo, 2 de março de 2014

Sobre Viver

Enquanto as paredes em volta se apertam
É o peito que parece precisar de espaço
Não tanto pelo ar que ainda irá lhe faltar
Mas por tudo dito no silêncio incapaz de se fazer entender.
Enquanto o tempo acaba
Menos há de muito no pouco de quem vai morrer.

Encarcerados nos porões de si mesmos,
Desatentos de cada lance que vive por si
Perdem-se no instante que passa
Do instante que insiste em querer existir.

São prisioneiros de escolhas pensadas,
Mas pensamentos que não são da razão.
Sentiram primeiro a batida do peito
E pensaram amor o que era paixão.

Paixão pensada e refletira não espera,
Nem pensa que um dia não mais será
Mas sabe-se curta e pede que viva e sinta
A par de tudo o que nunca será.

(chove, mas não cai água
e enquanto chove o barulho é forte.
mas também não faz raio!
logo, chove sem chuva e faz barulho que não é de trovão)

Quantos “agora” valem a paz do amanhã?
Quantos abusos valem a ressaca que vem?
Quantos dias valem a vida que não vive?
Quantos troféus valem a glória que não tem?

Caminham, mas não sabem para onde.
Riem, mas não sabem nem de que.
Pedem sem ter que na angústia lhes ouça
Choram por estarem juntos de ninguém.

Não estão sozinhos, mas se sentem só.
Quando estão sós são suas piores companhias
Mas não querem companhias que estão juntas
Ainda que peçam que voltem quando se veem só.

(lá fora a noite clareia:
o sol insiste em nascer.
mas no claro se vê a tristeza
que o escuro até tenta esconder.)

Risos...
Se os há, vem de fora
Lá de dentro não sabe sorrir.
Esqueceu...

Pranto
Se o há, vem de fora
Lá dentro não sabe chorar.
Esqueceu...

Caricatura de si mesmo
Pouco faz do que se sabe que é
Menos é do que aquilo que faz
Mas viva à custa do esforço de pôr-se de pé.

(ao longe há som de música sem voz nem melodia
um silêncio que faz sentido ante o luto da própria existência
Ante a dor de uma morte de quem, em pé, não se pode enterrar)

- Quietos todos! – são muitas as vozes que falam.
- Não... não são vocês aqui perto. Você podem falar
As vozes que falam só eu as ouço.
Se não as repito, ninguém as pode escutar...

Dizem que há quem a tudo vê.
Eu também o vejo, não apenas ele a mim.
Ele está aqui do lado, calado.
Ele é sempre calado assim.

Não mais procuro esconder minha vergonha,
Nem calar o que penso de mim.
E nem insisto em fingir derrotado
Da derrota que a mim mesmo impingi.

Sou o grande vencedor das vezes que perdi.
Então não comemoro, mas suporto.
Apenas insisto nos dias da vida
Mesmo que viver ainda custe sorrir.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Chega de mais ou menos. Vamos fazer da vida a festa: vamos festejar

Nada de mais ou menos. Nada de morno. Nada de “é o que tem pra hoje” ou “se não tem tu, vai tu mesmo”. Eu sei o que é melhor pra mim, você sabe o que é melhor pra você e qualquer coisa que não seja isso, é perda de tempo.
Não sei você que me lê, mas eu ando cansado de ver as pessoas se contentando com o pouco que elas não gostam. Ficam se enganando todo dia, acordando mecanicamente para encarar uma vida que vivem sem querer viver.
Cada vez mais as pessoas se perdem no medo de não conseguirem ser e ter o que querem e por isso não começam o caminho que lhes levará a que sejam logo quem e o que querem. Não. Lamentam-se com um, lamentam-se com o outro, prometem que mudarão e, acaba o dia, já se preparam para começar o dia que será tudo de novo.
Com medo de não conseguirem ser felizes, as pessoas se contentam em ser tristes. Com medo de não serem amadas, as pessoas se contentam com uma vida sem amor. Com medo de não terem vida, as pessoas se contentam em lamentar o que não viveram quando chega a hora de morrer.
Um bando de gente vivendo o resto de si mesma, com um monte de energia indo embora pra qualquer lugar que não seja o inevitável do que um dia ousaram sonhar.
Chega!
Está na hora de eu, você e todo mundo assumirmos que nos queremos o melhor que podemos ser e que esse é mais do que ousamos acreditar. Por isso quero mais desafios, mais batalhas, mais brigas e mais conquistas, mais risadas, mais abraços e mais vida. Acordar no domingo sabendo que abrir os olhos não é maldição. Descobrir que já é segunda e perceber que a vida não me pune quando me dá vida, mas sim, que me premia com novas oportunidades de fazer tudo o que ainda não fiz e conquistar tudo que me será, se eu for quem me quiser.
Chega!
Amar, só se for mais. Beijar, só se for pra não parar. Ter, só se for pra repetir. Prazer, só se for mais real que ideal. Gosto, só se for de quero mais. Querer, só se for pra realizar. Mais... mais... mais... sempre mais. O que é bom não cansa e nem cobra, distrai.
Já passou da hora de recomeçar todo dia, mas o tempo que ficou já não conta. O que conta é todo o tempo que eu tenho agora. Agora é o que me há. O depois mal sei se virá. Pode até ser que chegue, mas só me interessa o que posso contar. Então quero viver, quero vida e força e coragem. E saúde para conquistar e também celebrar, porque não haveria graça na vida se ela fosse só a seriedade da conquista, sem o gozo de se festejar.
Vamos fazer da vida a (nossa) festa? Vamos festejar(!)?

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

O que é o beijo?

Namorados que se querem, beijam. Ficantes que se têm, beijam. Carentes que se encontram, beijam e amantes que se desejam, beijam-se.
O instante do beijo (do novo, do velho, do que não se sabe e do que se conhece) é o particular-universal de todos nós.  A hora em que o encontro dos lábios se mostra o caminho mais natural dos dois que se põe diante um do outro, é o instante da justificação da existência e de tudo para o que fomos feitos.
O beijo não precisa ser de amor para carregar todo o amor que guardamos, mas que foi feito para ser vivido e não calado.
Pus-me a procurar como outros antes de mim se referiram ao beijo. Gostei do que disse Drummond quando escreve que “o amor é grande e cabe no breve espaço de beijar” e gostai também, ainda sem conseguir definir a autoria, quando alguém disse que “O Beijo é um delicioso truque que a natureza criou para interromper a fala quando as palavras tornam-se supérfluas”. E é bem isso. O beijo é o silêncio das palavras quando chega a hora de todo o corpo falar.
Se ninguém é feliz sozinho, tenho que o beijo é o corpo falando, o corpo pedindo, o corpo revelando a ausência da outra metade que se lhe completa ou que por ele se completará. Não por um acaso, Jean Rostand, “um beijo é um segredo que se diz na boca e não no ouvido”. Mas diz o que? O desejo e o apelo pelo toque que faça o desejo, do desejo que seja paixão e pela paixão que, eventualmente, se faça amor.
O beijo é o início, o começo, é o durante que traz, a toda uma vida, o sentido exato ainda que achado nos lábios de outro.
No beijo não se pede o outro, mas dá-se a esse outro. A energia que nos sobra não é nossa, mas para o outro e é a desse outro que é a nossa. Cheios do que somos apenas de nós mesmos, ficamos doentes como que num tipo de excesso que cobra um colapso de quem não se divide. No excesso que se guarda, se morre. Mas quando descobrimos o poder de se dividir, de ser do outro, de encontrar esse outro e se encontrar NESSE outro, aí fazemos vida, vivemos vida e não corremos risco nenhum se exagerarmos na dose.

Mais amor (e mais beijo), por favor. 

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Reflexão e Gratidão no dia do aniversário


Que diremos, pois, a estas coisas?
Se Deus é por nós, quem será contra nós?
(Romanos 8:31)

A certa altura dessa madrugada em que eu completo mais um aniversário, senti-me impelido – como a uma obrigação – a fazer o que chegou até ser uma rotina a um tempo no ano passado, mas que esse ano ainda não havia feito: tal qual ensinado por Jesus em Mateus, fechei a porta do meu quarto, dobrei meus joelhos e falei com Deus. Em princípio a intenção era só agradecer por tudo. Se tem uma convicção que ninguém me tira é que se ainda estou nesse mundo, se completo mais um aniversário, se estou e posso ficar em pé e me sentindo livre de maiores culpas, é porque Deus me sustentou até aqui. Em razão disso, fiz questão de me prostrar diante de quem sei que é maior do que eu para lhe agradecer por ter me cuidado, mesmo quando eu descuidava dEle e não lhe queria dar qualquer atenção.
Antes, na noite de véspera, participei de um “culto de ensino” onde realmente aprendi. Há tempos vinha alimentando meus próprios rancores a respeito do que não me convém tomar qualquer partido e isso vinha afetando não só a minha comunhão com quem está acima de mim e com os que estão em volta de mim, como também de mim para comigo mesmo. De repente, sem que tivesse razão para isso, me vi lamentando minha própria vida, dissociado que me pus do que realmente seria capaz de saciar minha sede de vida.
Enfim, enquanto agradecia a Deus por tudo quanto tenho e por todos que fazer ou fizeram parte da minha vida, desde amigos e colegas da infância cada vez mais distante, até os que se aproximaram nos anos mais próximos, enquanto agradecia e pedia pela vida do pastor que tanto prazer tenho em voltar a respeitar (enquanto instituição) e enquanto era grato pela família que tenho e por quem sempre peço proteção – e nisso fui até o tronco mais distante da minha genealogia –, fui dando conta de que, muito embora ainda tenha sonhos que se realizarão, tenho muito do que me sentir satisfeito. E se assim afirmo, o faço porque trabalho no que gosto e me sinto respeitado e reconhecido por isso, compro o que preciso e muitas vezes até mais do que preciso e posso pagar pelo que compro. Tenho pessoas que gostam de mim e gosto de gostar delas e o que mais eu poderia querer ter?
Na medida em que falava com Deus, podia sentir que apesar da atual falta de costume, Ele também tinha o que falar comigo e daí, coisa que pouco faço, mas que minha fé me permite fazer, sem qualquer razão especial, coloco três Bíblias sobre a minha cama e peço, então, para que ao abri-las, achasse ali uma mensagem que, vinda de Deus para mim, alegrasse o meu coração tão carregado, no entendimento que me viria da Sua vontade. Das três mensagens bem entendidas, a que trago e destaco nesse texto foi a que se abriu no capítulo 18 do livro de Jeremias. Essa passagem é bastante conhecida dos que tem por hábito a leitura da bíblia e se refere a uma ordem dada por Deus ao profeta e que este descesse até a casa do oleiro e observasse que enquanto esse oleiro fazia um vaso de barro, esse vaso se quebrou em suas mãos, o que levou o oleiro a fazer dele um outro vaso conforme lhe pareceu bem aos seus olhos. E, tendo isso sido visto pelo profeta, Deus pergunta à Israel: “Não poderei eu fazer de vós como fez este oleiro, ó casa de Israel? diz o Senhor. Eis que, como o barro na mão do oleiro, assim sois vós na minha mão, ó casa de Israel”.
O recado me pareceu claro e meu coração se exultou. Oxalá seja Deus sempre o oleiro do barro que é minha vida, e me faça e me refaça sempre à sua vontade. É claro que sei que fazer um novo vaso no lugar do que se quebrou não é um processo indolor. O vaso quebrado precisa ser lançado de volta à fornalha quente para que o barro possa ser remodelado, mas quem poderá se queixar de passar pelo fogo que vem de Deus, Ele querendo te fazer melhor para uma vida que lhe agrade.
Quando chego num estágio da minha vida em que percebo que minha gratidão a Deus, não só pelo que me fez na minha vida, mas pelo que fez e faz por minha vida (aqui entenda, ter enviado Jesus Cristo para morrer pelos meus pecados e os pecados de todos nós), não posso temer me colocar nas mãos de Deus, seja para o que Ele quiser. Ele não me quererá mal e nem o mau. Antes, digo como disse Davi quando instado a escolher qual tratamento receberia de Deus pelo orgulho que se assomou ao seu coração e ele, Davi, respondeu: “...caiamos nas mãos do Senhor, porque muitas são as suas misericórdias; mas nas mãos dos homens não caia eu. (2 Samuel 24:14).
Meu coração deseja, com sinceridade, que todos se permitissem a prova de cair nas mãos do Senhor e gozarem de sua misericórdia. Porque eu sei, de mim, o quanto dependo delas. Sei dos meus muitos pecados nesses 29 anos e penso que talvez não tenham sido ainda nem a metade do que ainda tenho pra pecar nos muitos anos que espero que Deus me tenha reservado, porque a nossa natureza – humana – é de pecar. Não tenho medo do pecado, porque sei que acho perdão na misericórdia de Deus, meu medo é viver no pecado e nele achar prazer. Antes, quero meu prazer na palavra de Deus revelada ao mundo e que muitos teimam em crer que foi alterada pelos homens, sem que entendam que esse Deus, que é grande, é todo-poderoso para preservar o que lhe é caro da intenção de quem quer que seja.
Por fim, após orar tomei a bíblia e me pus a ler o Evangelho de João a partir de seu início, um desejo antigo do meu coração. A medida que o lia, e não o li por inteiro porque a madrugada avançava e meu dia começaria bastante cedo, meu coração foi se enchendo de alegria ao ler as palavras desse Jesus que me guarda e guarda a ti também, te esperando que lhe busque e lhe dê uma chance. Foi então que a certa altura me deparo com a passagem conhecida em que Jesus se revela o Cristo a uma mulher samaritana e lhe afirma . Essa mulher, diante dos sinais de Cristo, correu à cidade e o anunciou aos demais samaritanos que aceitaram a palavra dela e foram ouvir a Jesus e acreditaram em Jesus e disseram: “Já não é pelo teu dito que nós cremos; porque nós mesmos o temos ouvido, e sabemos que este é verdadeiramente o Cristo, o Salvador do mundo. (João 4:42).
Deixo um convite. Ouça você também o que Ele tem pra ti.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Último Capítulo de Amor à Vida, o beijo e as sutis mudanças de uma sociedade que é viva

Como já era de se esperar, após a cena do tal beijo gay da novela Amor à Vida, surgem várias teorias a respeito do que tal gesto representa. Desde os mais entusiasmados militantes do movimento LGBTT aos mais raivosos “religiosos” (desses que acham que Deus só é o “seu” amor e não TODO amor), cada um tem uma visão muito própria dos rumos da sociedade brasileira frente a essa (velha) nova realidade que se apresentou.
Em primeiro lugar, é preciso que se diga que não há qualquer inovação na representação de dois homens se beijando. No Cinema, no teatro, na literatura – e, principalmente, na vida real – isso é mais do que comum. Logo, afora o fato de ter ocorrido pela primeira vez numa novela da Globo, a programação mais assistida e comentada do país, não há qualquer razão para festejos ou assombramentos.
Ao contrário do que alguns defensores da “causa gay” querem acreditar, o fato de se ter transmitido o beijo entre dois homens não significa uma mudança de consciência da população brasileira ou mesmo um cala boca ao Feliciano e aos que pensam como ele. Na verdade, também ao contrário do que pensam os defensores da “causa gay”, a tolerância das pessoas não é fruto da sua militância muitas vezes ofensiva aos que não comungam de suas preferências. Hoje, se há uma maior tolerância às relações homossexuais é porque a sociedade evoluiu uma evolução por estágios autômatos e, até por isso, inevitáveis.
São raros os que enxergam a opção/orientação sexual de alguém como uma anormalidade, como algo contra a natureza. Os que assim ainda o fazem, são muito mais guiados pelo medo de se permitir pensar diferente ou até pela incapacidade de enxergarem o diferente como um igual ou mesmo, temem não serem aceitos em determinado meio que parece fomentar, se não um discurso de ódio, um discurso dissociado do amor. Ora, a partir daí, a partir dessa realidade em que se enxerga que sim, que ser “diferente é normal”, as pessoas tendem a aceitar que se não lhes diz respeito, não tem que lhes fazer mal. Se não lhes faz mal, não é da sua conta e se não é da sua conta, não têm que dar palpite no que o outro faz de sua própria vida. E é a isso que entendo que se deve o fato de aceitarem bem o casal formado pelo “Félix e o Carneirinho”. As pessoas simplesmente entendem que casais como aquele simplesmente existem.
Quanto à torcida pelo tal beijo, estou certo de que ela não diz respeito a uma mudança de mentalidade da grande parte das pessoas, com a mesma certeza que tenho de que o público não gostaria de que em toda novela houvesse gays se beijando. Aqui, temos um elemento a mais. O autor da novela, não sei se por talento ou por acaso – muito embora fique com o acaso – não obstante as incongruências de roteiro e dinâmica das personagens, conseguiu desenvolver um romance palatável entre os dois. Quem via a dupla, não se limitava ao gênero, mas ao afeto que surgia e isso, também, graças a atuações seguras dos dois atores envolvidos.
Além disso, é importante destacar a maturidade com que foi demonstrado o “núcleo gay” da novela, uma vez que se fugiu do estereótipo “da bicha louca” de outros tempos e outras novelas e se aproximou para o público a realidade que se vê na rua onde há gays e eles trabalham, vivem sua vida, são cidadãos que amam, que sonham, desejam... que sentem a vida. Quando a gente se atenta para o indivíduo como um todo, deixando de rotulá-lo como alguém que a gente define por um único critério, nos aproximamos muito mais da nossa própria humanidade, feita e refeita nas várias circunstâncias que nos fazem quem somos.
O que a novela nos proporcionou, acima de qualquer coisa, foi a possibilidade de refletirmos como nossos (pré)conceitos limitam a nossa humanidade e, se é que essa improvável redenção da personagem do Félix pode sugerir alguma coisa, é que se as pessoas forem aceitas, e amadas, e puderem viver o que são, como são, com menos ou nenhum segredo, acolhidas por quem amam e sentindo-se livres não para chocar, mas sim, para serem quem são, a vida pode sempre recomeçar e ser mais leve e cada vez melhor.
Não. Eu não acho que a sociedade mudou. Acho que a sociedade é a mesma e seus "valores" continuam os mesmos, com a diferença que eles variam a depender do público para o qual cada um "se" prega. Mas as pessoas, essas sim mudam todo dia e a reação ao último capítulo da novela prova isso. Não é manipulação, não é fim dos tempos, nem obra do "satanás". É gente entendendo que ser gente não se aprende na cartilha, mas se aprende no coração, na vida que vive e na experiência que soma. Que bom...

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Amor, pra que a pressa no amor?

Quase todo mundo que eu conheço elege o início do relacionamento como o melhor momento. Aquela vontade de conhecer, de descobrir, de acertar. O romantismo é a regra e tudo parece se resumir em Vinícius e no seu querer “estar junto se longe e mais junto se perto”. É aquela fase em que se faz questão do beijo, do abraço (e até do aperto de mão). É bom. É o momento do auge da paixão. É arrebatamento, entrega e um sentir sem fim.
Sim, um sentir sem fim. Mas um sem fim que corre o risco inevitável de se findar. Ao longo de todo esse início, os apaixonados tendem a passar por cima dos defeitos do outro. Ignoram-lhes sumariamente. “O véu da paixão encobre os defeitos recíprocos”, para usar a expressão do prof. Cristiano Chaves. E, se nesse tempo as pessoas deixam de considerar certos fatores a respeito do outro, tem-se como um período perigosíssimo para se tomar certas decisões.
A decisão apaixonada perde na severidade de seus critérios. Quando apaixonada a pessoa só enxerga o objeto da sua paixão, que se confunde com o objeto do seu desejo, ambos ganhando um grau de urgência tal que faz com que se queira consumado e consumido no instante de agora (já que se lamenta não tê-lo feito antes). Ora, se é assim, a pressa põe a pessoa sob grave risco de um arrependimento inútil, só porque não curtiu o instante, mas quis antecipar o depois.
A premissa aqui é simples: está apaixonado hoje? Curta a paixão dia após dia, mas sem deixar que ela te guie na tomada de decisões. Deixa que a vida viva naturalmente, sem tantos planos ou expectativas. Não anseie o que virá. Não deixe de fazer/viver hoje porque por alguma razão você considera que é na decisão do que acontecerá amanhã que você poderá, enfim, ser livre pro que quer desde agora. Não se paute no que esperam de você, mas no que você mesma quer para você enquanto pessoa que sente, vivi, deseja. “O amor não tem pressa, ele pode esperar...”, já cantava Chico. Então curta a fase da paixão, deixa que ela vire amor, deixa que o amor faça a rotina e, quando chegar lá na frente, a rotina será parte de você(s).
Agora, se você “radicaliza” e já resolve transformar a paixão em rotina (e por mais que pareça que sim, isso não dá), sinto te dizer, mas a paixão tem prazo de validade. Ninguém vive o tempo todo no limite, o corpo não aguenta, o coração não aguenta. E a paixão está sempre na rotação mais alto do sentimento, do motor da vida. Ah, vocês não gostam da hora do tchau? Vocês mal podem esperar pela hora do OI? O melhor que parece e que poderia ser é que não precisasse haver nem Tchau e nem OI? Bom... mas se é início, curta o início. Só. Experimenta se daqui dois anos, três anos, vocês ainda farão questão um do outro. O teste do tempo é implacável e ser aprovado nele é imprescindível.
No fim, a maior inocência dos apaixonados é acreditarem, de verdade, que toda delícia do agora será a mesma no depois. Acreditarem que não vão mudar e que, se mudar, será para melhor. Acreditarem que só o amor basta. Em suma, acreditarem... talvez por isso, a paixão seja adolescente e o amor seja adulto. Então espera! Pra que a pressa no amor? Ele não tem porque passar. E daí você pode ficar adulto primeiro e decidir depois... 

domingo, 19 de janeiro de 2014

Dividir para somar vida e viver...

Num mundo que parece cada vez mais marcado pela indiferença, a solidão acompanhada parece ser a constante que definirá os anos atuais. Cada vez mais as pessoas estão “interligadas” umas as outras em redes virtuais plenamente capazes de sugerir uma falsa sensação de acolhimento de um grupo que, na verdade, não existe. A partir daí, disfarçam para si mesmas a triste realidade de quem tem dificuldade de entender a sensação de vazio mesmo quando nota a grande lista de “contatos” que conhece em sua vida (de rede) social.
Cada vez mais as pessoas se bastam menos. Quantos e tantos são os que numa noite como outra qualquer – e elas estão cada vez mais parecidas – rolam suas barras de contatos em busca de alguém pra falar o OI e iniciar a conversa que lhes fará, ainda que sozinhas nos seus quartos (ou salas, ou apartamentos), sentir-se acompanhadas. E por isso que acho que as pessoas estão cada vez mais solitárias.
Ora, se convivo apenas comigo mesmo e canso de mim, fico sem a escolha de saber que sou a companhia agradável para o outro que, também cansado de si, remói a solidão desacompanhada dentro de uma vida real vazia do que valha a pena.
Mas como viver sem partilhar a angústia, sem descobrir que a vileza não é só nossa e que as derrotas não nos são exclusivas e nem mesmo o medo ou a covardia?
Se a minha vida é vivida num meio de pessoas perfeitas, que gozam férias perfeitas, que namoram namorados perfeitos, que estão nas festas perfeitas, acompanhado de um grupo de amigos perfeitos, vou achar que o problema está em mim e só em mim. Se eu pauto minha vida na fantasia que me vendem no mundo que não é de verdade (mas virtual), logo lamento a vida que (não) tenho porque ela não se assemelha com aquela vida que os outros (também não) tem.
E o mais curioso é que as pessoas parecem querer mostrar a perfeição da vida que não vivem a fim de serem melhores aceitas por aquelas pessoas que elas julgam viver a vida perfeita que anseiam para si. E no que eu me mostro e não sou e no que o outro se mostra e não é, corremos o risco de nos considerarmos indignos de participarmos um da vida do outro (essa sim de verdade), afastando-nos ainda mais a muita distância que nossas mentiras já nos afastam.
Tanto melhor seria se as pessoas assumissem suas fraquezas mais do que mentissem as fantasias que se creem. Melhor seria que mostrassem sua humanidade cheia de imperfeições, do que sua super-humanidade tão dissociada do que seria possível ser enquanto gente que sente, chora, erra e ri. Se nós nos empenhássemos em viver a vida no corpo, essa vida que sente, que toca, que cheira, que beija, abraça, olha e ouve ao vivo, saberíamos que aquele que parece mais, às vezes está mais e às vezes está menos e que quando ele é mais, me torna mais ainda que eu esteja menos e quando ele estiver menos, será mais do mais que lhe farei. E haveria menos dor, menos angústia, menos “menos”.
Se a mente da gente mente, os olhos, a voz e a postura não. Mas a gente não vive da mente que mente, a gente vive do corpo que sente. Deixa, então, que o outro – que te mereça na reciprocidade de ser merecido por ti (e por mais que você duvide, esses todos são) – saiba o que você sente. Divida-se você e deixa que ele te divida ele. Dividam-se os dois. Dividamo-nos nós uns aos outros e somaremos e ganharemos vida porque, no final da vida, o que vale mesmo é esse viver.

domingo, 5 de janeiro de 2014

Satisfação é costume


Ao contrário do que as redes sociais tentam sugerir quando mostram milhares de sorrisos capturados no lance rápido de uma foto, o que percebo é que as pessoas estão cada vez mais insatisfeitas com sua vida. Talvez esse fato se deva à inevitável comparação que fazem de sua vida real com as vidas ilusórias dos que as cercam e que só mostram o gozo ininterrupto que não têm. Ninguém é feliz o tempo todo e não há quem viva uma vida sem que a dor, o ressentimento e a angústia façam parte. Ainda assim, as pessoas parecem - na sua maioria - viver uma necessidade de se mostraram sempre vitoriosas, infalíveis e inatingíveis pelas agruras da humanidade, de serem humanos. 
A partir daí, comparando a certeza que temos de nós mesmos com a aparência que vemos de quem nos mostra apenas parte do que é, invejamos a fantasia que é culpa exclusiva da nossa imaginação, tendente que é de fazer com que vejamos no outro todos os sucessos que não experimentamos, todas as vitórias que não venceremos e todas as felicidades que jamais ousaremos querer sentir. É quando, então, nossos ombros pesam pra frente, nosso semblante cai, nossos passos ficam carregados e a vida que deveríamos viver passa a ser o que nos vive, consumidos que nos fazemos pelo ocaso de uma existência insatisfatória dentre tantas que parecem tão cheias de satisfação. 
Estamos sendo injustos para conosco e somos apenas nós que temos a condição de revertermos esse quadro tão dolorido.
O primeiro passo para que sejamos justos para conosco é deixarmos de ser nosso principal adversário. Somos nossos próprios adversários quando protagonizamos violências que se voltam exclusivamente contra nós. Quando abro mão de experimentar um prazer que sempre tive sem que uma razão justa - e que seja minha - o justifique, sou violento contra mim e a insatisfação que sinto - por ser causada por mim - se faz motivo para que me goste menos, justamente porque é uma insatisfação a que eu mesmo dei causa. Ora, se me gostando menos, é natural que faça  pouco para alcançar o melhor de mim, afinal, não me mereço. 
É nesse momento que surge a necessidade de que sejamos francos com aquele que vemos todos os dias refletido no espelho diante da gente. É necessário que eu tenha o controle, o domínio de quem sou, do que quero, do que gosto, do que espero e do que posso fazer em razão e como fim de tudo isso. Por tudo isso é que é preciso que paremos de nos renunciarmos a nós mesmos e, antes disso, que sejamos honestos, sem medo dos julgamentos daqueles que, por não serem a gente, não tem qualquer condição de entender quem a gente é e porque a gente gosta disso que a gente gosta.
Como somos imaginativos, logo olhamos nosso próximo e nos permitimos crer que ele não abre mão de si, que goza feliz seu matrimônio, vivendo com um cônjuge que não lhe cobra e nem lhe furta um prazer que é sempre ninfômano, um chefe que sempre lhe compreende mais do que lhe exige, um emprego que lhe satisfaz mais do que fustiga, uma vida sexual que é ativa, plena e desembaraçada de pudores desnecessários, amigos, dinheiro, possibilidades e uma boa sorte que não tivemos e nem cremos que a teremos. Nessa pessoa vemos alguém que se permite, que vive de uma forma mais intensa do que a gente ousa e pensamos que se ele faz - e nem sabemos se realmente é como pensamos - nós também poderíamos, porém, a rotina da vida nos suga e, quando mal nos notamos, somos mera repetição daquilo que sempre fomos e que a maioria também é. 
Uma vida inteira de possibilidades para que sejamos o que quase todos também são. E aí está uma segunda violência para conosco.
Ao longo de nossa vida estamos cercados de pessoas que são mestres em dar palpites. É incrível, mas às vezes a impressão que dá é que praticamente todas as pessoas a nossa volta sabem melhor do que gente o que é melhor pra gente. É por isso que vemos pessoas insatisfeitas nas faculdades, nos empregos, nas cidades em que moram. A maioria dessas sucumbe à pressão e, inseguras em relação ao que sentem, seguem um roteiro escrito por quem não vive sua vida, mas não se toca que se é que sabe de algo, sabe pouco do muito que sente.
Sentir sem medo e respeitar o que sente e o que quer até se permitir buscar o que almeja, é outra forma de acabarmos com a violência para conosco e estarmos satisfeitos com quem seremos se de fato quisermos ser.
Querer ser é ter esperança, mas não a esperança de quem espera. A esperança que se "esperança" é aquela de quem age com o fim de alcançar o que quer, de quem não se furta de arregaçar as mangas para ser o protagonista da própria história e o arquiteto do próprio futuro. É a  esperança que sai do silêncio do anonimato gritando o som da certeza de ser quem é e não o que acha que esperam que seja. E, quando formos - e seremos - o dono de nossa própria história, poderemos nos dar por satisfeitos de verdade, não pela estima que nos prestam (emprestam), mas pela estima que nos temos, porque nos damos. É tudo uma questão de termos o costume de vivermos o que é nosso e o que somos nós e a satisfação nos será costume, costume de satisfação.  

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Retrospectiva 2013: o ano novo e a oportunidade das novidades que fazemos por nós




Ter estabelecido o costume de escrever um texto de fim de ano aqui no blog desde o seu primeiro ano (2009), acabou sendo um hábito saudável, já que me exige passar em revista o ano que se encerra.
Sempre digo que não vejo virada de ano como uma oportunidade de mudança diferente do que qualquer outra virada de um dia para o outro. O tempo é nosso e a única certeza que nos traz é a de que não para e, se o dividimos em frações, é para um controle que se quer que conforte, mas que não oferece muito mais além da angústia de se saber que a soma de hoje é menos do que será na hora seguinte.
Tudo bem que olhar para trás pode fazer com que se perca o bom caminho que se anda (ou deveria se andar) pra frente mas, ainda assim, se nosso tempo é dividido, fracionado e contado da forma que é, é importante que avaliemos o que fizemos e o que, disso que fizemos, trará algum fruto bom para o que ainda viveremos. Ora, insistir no que não nos leva à diante, repetir o que nos tomou o tempo que não nos voltará e nem nos somará no resultado final da nossa vida, é lutar contra nós mesmos. Daí que me parece sem qualquer propósito que as pessoas comemorem o novo ano como uma nova oportunidade, sem que queiram ser a outra pessoa que lhes será melhor.
Ainda assim, penso que o saldo do meu ano de 2013 é mais do que positivo. Tive tristezas, alguns princípios de decepção no início do ano, mas que viraram alento no seu final. Senti falta de muita gente, reencontrei algumas no caminho e conheci outras que chacoalharam meus dias e mudaram radicalmente meu destino daqui pra frente... e da melhor forma possível.
Em 2013 ir à igreja virou regra e não mais a exceção dos últimos anos. E isso tem me feito bem e muito graças a uma viagem a São Paulo e a visita a uma amiga querida que encontrei na sua igreja. De volta pra Rondônia, logo no primeiro domingo e a vontade de ir à igreja de novo e nunca imaginaria que essa ida mudaria a minha vida. Lá encontraria quem me veria primeiro, saberia de mim e surgiria na minha vida com uma elegância quase nada discreta. Chegou "me lendo" e depois perguntando, perguntando, tentando conhecer. Depois foi deixando pra lá, meio que fugindo e fingindo não querer. Mas ao alcance de um chamado e de um primeiro oi - após a gentileza dela - que me fez querer saber dela o tanto que ela parecia - no início - querer saber de mim.
À essa altura o ano já tinha me levado pessoas e me trazido outras que foram importantes no cenário de um ano que no seu início parecia melancólico, mas que no seu meio já tinha muitas novidades. Liberdade, independência e experiências que me faziam escrever de forma apaixonada as paixões que eu criava, mas das quais sempre fugi. Vivia minhas histórias sem a profundidade que faz com que o tempo se acumule ao invés do fim inevitável de um começo que nunca passará para além. Mas cada visita recebida nesse instante do meu ano, foi  surpresa mais que bem-vinda a me fazer esse alguém pronto a olhar meu 2013 e saber que devo mais é agradecer.
Minha vida que se fazia uma bagunça de sentimentos em sentimentos, de muitos "gostar", muitos quereres e muitos sentir, entrava numa ordem feita por mim para ser de quem queria viver e tenho vivido e desde que surgiu (no último quarto do ano) tem me mostrado que o mais acertado de mim, foi me guardar para ser de verdade de quem não se furta de ser parar mim mais do que eu seria possível experimentar na vida com outro alguém. E que seja mais e para mais e muito mais.
Sou grato a Deus e à vida pelas pessoas que estiveram nos outros anos e ainda estão. Não mantenho por perto e nem dou importância para quem não me é importante. O que seria de mim sem minha analista que me mantém no meu eixo (que nem é tão centrado assim - graças a Deus!)? Ou sem quem me é queria já que me faz confidente e me escuta e torce também? Que bom que tenho essas que também me querem bem.
Sou grato a Deus e à vida pelas pessoas que conheci, pelo trabalho que mais do que emprego, é um trabalho que gosto e pela família que amo e que esse ano cresceu e no próximo continuará crescendo. Tudo vem sendo bom e não tem porque não melhorar já que, como diz a propaganda, se melhorar, melhora!
Um ano, então, se encerra para que outro se inicie e, a partir destes, as pessoas planejam, projetam e sonham, mas quando passa o tempo da festa e a vida volta a ser o que sempre foi, voltam-se as rotinas e tudo que se faria perde para o que será a repetição do que sempre foi. É certo isso? Talvez não, mas o mais importante é que a vida vive e não para de viver.
Ainda assim, as eras em que dividimos nossos dias são propícias a que pensemos e repensemos nossas vidas e o que temos feito ao longo dos instantes em que estamos vivendo. O que será, será e que se é pra ser surpresa, que seja a surpresa que vem daquilo que fazemos e que ousemos fazer então. Façamos... amor (e guerra se preciso), escolhas, o futuro nosso de cada um. Mas façamos, porque viver é fazer e fazer é viver... vivamos o 2014 para que seja melhor do que todos que passaram foram e todos os próximos sejam melhores ainda. FELIZ ANO NOVO!!!

domingo, 22 de dezembro de 2013

Esperançando...

Nada de simples esse sonho de agora
Em que me havia tudo que um dia me quis
Nele estava você mais do que linda,
Nele me havia a você que me fiz.

Não me passava de um sonho improvável
Fantasia que mal ouso contar, 
Mas é que no sonho o impossível é provável 
Até o instante em que nos faz acordar.

Não me vejo em teus olhos que não vêem a mim
E nem te busco além do muro de vidro que há
Mas vem a vida e resolve me dar
Esse sonho calado que insisto em sonhar.

Mas não me queixo de um sonho que, enfim,
Te traga tão linda e pertinho de mim.
E, quanto aos meus sonhos, que eu possa é sonhar 
"Esperançando" a certeza de que você me haverá.

(22/12/2013)

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Deus é uma opção (mas de alguns)

Ontem eu tive a oportunidade de assistir ao documentário “Sergio” sobre o diplomata brasileiro, Sérgio Vieira de Mello, morto após a explosão de um carro-bomba contra o prédio da sede da ONU no Iraque, onde atuava como chefe da missão e representante do Secretário-Geral Koffi Annan. A certa altura, ouve-se de dois oficiais das Forças Armadas norte-americanas que serviam no Iraque, que ambos encontraram o brasileiro com vida sob os escombros do prédio, preso na altura do peito para baixo. Durante o resgate, um dos oficiais convida Sérgio a que rezasse com ele e pedisse que Deus os ajudasse a tirá-lo daquela situação, momento em que ouviu dele, aspas ao oficial, citando o brasileiro: “Dane-se Deus. Foi Ele quem me colocou aqui. Não quero oração. Quero que primeiro tire os outros daqui”, além de outras prováveis ofensas a Deus e que o oficial não se sentiu confortável em relatá-las à câmera.
Fiquei imaginando a situação daquele homem. Segundo os seus socorredores, ele esteve lúcido o tempo todo. Enquanto a dor permitiu, conversava com os militares e pedia que cuidasse dos demais funcionários da organização que chefiava, tinha total conhecimento do que havia ocorrido e pelo que estava passando. Próximo de si, ouviu enquanto um colega de escritório tinha as duas pernas cerradas para que pudesse ser retirado de sob os escombros e, ainda que flertando com a morte, quando convidado a fazer uma oração – e ele tanto poderia morrer a qualquer momento, como de fato morreu – opta por não fazê-lo, não querendo se ocupar de um sentimento religioso, ainda que às portas da morte.
Diante dessa reação, os crentes de certas crenças podem até lamentar a decisão daquele homem, considerando que perdeu a chance de uma redenção junto a quem poderia dar um bom destino à sua alma após o fim de sua vida. Contudo, podemos lamentar, mas não censurar tal decisão. Ela é razoável e faz sentido. Deus é uma opção e, ainda que possa ser verdade, continua sendo uma opção e acredito que nem mesmo Ele acha que é diferente. Diante das circunstâncias da vida cada um opta pelo que bem entender. Uns optam em crer e busca-lo, outros optam por não crer e, portanto, não faria sentido algum se ocupar dEle, enquanto outros optam por crer nele e, apesar disso, não querê-lo para si. São todas opções. E são legítimas. São justas. E elas não fazem ninguém mais forte ou mais fraco. O fato de alguém dizer que não precisa de Deus não o torna mais especial, autossuficiente ou digno de admiração (nem de pena). Da mesma forma, os que acreditam em Deus, não são seres menos preparados, ou menos intelectualizados só porque colocam sua esperança numa força superior que lhes dá suas razões para crerem.
Por outro lado, temos que levar em conta o fato de que Sérgio estava certo: fora Deus quem o colocou naquela situação, esmagado por toda sorte de entulho porque um terrorista maluco estacionou um carro-bomba sob sua janela e o explodiu. Ou não é o que diz a Bíblia de que tudo ocorre porque Deus permite? A diferença vai de como entendemos o trabalhar de Deus e, se o considerarmos perfeito, poderemos dizer que seu principal objetivo é estabelecer um relacionamento com o homem, destinando-o a que se aproxime dEle mais e mais, uma vez que, sendo Deus amor e tendo para conosco a intenção de que passemos por esse mundo para gozarmos do melhor que nos tem preparado, temos um Deus que nos estende a mão o tempo todo, menos preocupado com nosso destino terreno e mais ocupado em nos preparar pelo que de melhor ainda nos virá.
Pois bem. Acontece que o nosso mundo é esse e ninguém pode ser culpado de gostar e fazer questão do único universo que conhece, nem das boas sensações que experimenta ou do bom futuro na vida que ainda sabe que vive. E se viver é feito de escolhas que temos que escolher, Deus também é opção que podemos ou não fazer. E até isso é escolher e não faz ninguém melhor, nem pior do que ninguém. Apenas diferente. E diferente também é bom... e o respeito mútuo é ainda melhor.