quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

O mundo ainda é grande (pequena é a nossa forma de pensar)

O mundo “lá fora” é muito mais do que o mundo da gente.  Apesar de essa ser uma observação mais do que óbvia, algumas pessoas parecem participar de certa dificuldade de aceitar essa verdade e julgam-se no direito de julgar o mundo dos outros com base no mundo em que se prenderam a si, acreditando de forma bastante pia, que as escolhas que se fizeram deveriam servir de modelo para as escolhas que outros se farão.
Um médico não deve achar que no mundo tudo é medicina. Da mesma forma, um jurista não deve achar que o mundo é só Direito ou um religioso achar que tudo é metafísico. Assim como um matemático não pode achar que tudo é lógico ou um psicólogo achar que tudo é inconsciente, o certo é que tudo de um é nada perto de tudo do todo.
Cada indivíduo com suas próprias circunstâncias e o mundo continua. O grande barato dessa história toda está no fato de sermos diferentes e podermos achar espaço para todas as nossas diferenças. Sempre há espaço.
Vejam, as pessoas até podem ser muito parecidas, mas serem parecidas não é serem iguais, de modo que o que é bom pra um, o que serviu pra esse um, o que agrada a esse um, pode ser desprezível pro outro que viveu diferente, cresceu diferente, aprendeu diferente e, principalmente, se sonhou diferente.
Dois irmãos, mesmos pais, idades muito próximas e escolhas completamente diferentes e isso porque existem várias formas de ser alguém.
Esqueçam seus sonhos para o outro e apoiem o sonho do outro para si.
Quantos pais julgam mal seus filhos porque os filhos se quiseram diferente de seus pais? E de quem é a culpa? Dos pais é claro. Antes de acharem que sabem o que é melhor pro filho, deveriam procurar entender o que filho sonha pra si e ao invés de desestimulá-lo, ensiná-lo o quanto é possível viver bem simplesmente vivendo bem e não tendo que ser “alguém”.
A ditadura do sucesso obnubila os futuros. Estabilidade, bom salário, boa posição e muitas vezes infartos precoces, depressões mais e mais fortes e uma miséria interior que parece sem razão. Ao mesmo tempo, aquele que juntou menos, se disciplinou menos, está vivendo mais, amando mais, sentindo mais e se permitindo até ser mal entendido por quem acha que o que vale é o que se ajunta e não o que se soma.
Há espaço para todas as diferenças, todas as profissões, todos os sonhos, todas as vontades, tudo o que for – socialmente – entendido como bom. E até pra outras escolhas.
E não nos façamos reféns do nosso medo de errar e nem inseguros pela crítica de quem nos quis dominar. Antes, permitamo-nos mandar às favas o passado e suas companhias quantas vezes seja preciso, recomeçando de novo e de novo, sempre vivendo quantas vidas forem possíveis em uma vida, não nos preocupando com a próxima que não se sabe e que ainda não há, mas com a única que por algum tempo ainda haverá.
Não nos queiramos modelos. Não sejamos quem impõe, mas quem facilita; não quem sufoca, mas quem apoia; não quem desanima, mas que estimula; não quem nega, mas sim, quem sabe o valor e a importância de se ouvir e se dizer sim.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Do jeito mais difícil...

“Deixa estar para ver como é que fica”. Esse parece ser o principal lema da maioria das pessoas. Não importa o quão descontente elas estejam, é raro que pareçam inclinadas a mudar sua forma de ser.
Até mesmo eu fico tentando me provar o contrário do contrário quando, a bem da verdade, acho mesmo é que não existe mais ou menos na vida. Mais ou menos é o disfarce do ruim. A gente pode até ficar tão acostumado com o ruim que não faz nada pra melhorar, mas daí a querer convencer que “tirando o que tá ruim, tá bom”, corresponde àquela tentativa inútil de repetir uma mentira pra ver se ela se torna verdade.
O mundo está cheio de pessoas sorrindo um sorriso vazio. Você assiste lábios bem abertos num sorriso que tinha tudo pra ser bonito, mas que logo é traído pelos olhos que não são alegres como o sorriso quis supor.
Você vê casais que trocam beijos sem paixão, abraços sem afeto, carinho sem vontade, tudo como se fosse um script a ser cumprido em razão de uma satisfação de outros que não sejam aqueles que já nem sabem mais porque aceitam o menos.
Será que não está na hora de dizer chega? Será que não está na hora de se admitir que a hora nunca é errada quando é vivida, mas é sempre perdida quando se insiste em não viver, quando se insiste em não fazer o que se deseja, o que se quer, não fazer acontecer? Quanto tempo até que não haja mais tempo? Há tempo... sempre há tempo enquanto tempo houver.
A gente sabe o que quer. A gente sempre sabe o que quer. A gente sabe o que não quer. A gente sempre sabe o que não quer. Mas cumprindo à perfeição nosso papel de nossos piores adversários, achamos que nossas certezas sobre nós mesmos estão erradas e que há outro alguém muito mais capaz de nos entender, completar e compreender melhor do que nós que nos sabemos, nos conhecemos e dominamos o que pensamos, apesar disso ser justamente aquilo que mais calamos.
A esposa sabe que acabou. O marido sabe que não devia ter começado. O empregado sabe que merece mais e o sócio sabe que trabalha sozinho, mas todos permanecem unidos em nome de qualquer coisa que no fim é o medo. Não aguentamos mais, mas insistimos com o mesmo. Não queremos mais, mas continuamos com o mesmo. Já desistimos, mas não encerramos. Tememos.
O engraçado é que a vida da gente – e das gentes – nos ensina que ela sempre continua, não importa se acertamos, se erramos, se nos alegramos ou se nos arrependemos, mas mesmo assim, a gente tem medo. Medo de não ser a melhor decisão, de não alcançarmos uma melhor conquista ou de não encontrarmos um caminho melhor e então continuamos no caminho que não nos leva a lugar nenhum, vivendo uma vida que, a  cada escolha que não reflete nossa real ambição, só faz perder vida.
E daí morremos. Morremos cheios de arrependimentos inúteis por não termos feito o que desejávamos sob a desculpa fajuta de termos vivido exatamente o que podíamos, mas sem que tivéssemos alcançado nada daquilo que nos queríamos.

Mudar não parece ser fácil, mas acostumar a viver mal é viver do jeito mais difícil. 

domingo, 30 de novembro de 2014

Independência ou morte

 "... eu não tenho medo da morte. O que eu tenho é saudade da vida."
Vinícius de Moraes

A única certeza que temos na vida é a de que vamos morrer. A partir disso, há as outras certezas que insistem em ter, mas que ninguém tem direito de ter nenhuma. É por isso que os religiosos, muito embora concordem que todos vamos morrer, também acreditam que teremos outras vidas. Para alguns, outras vida vividas nesse plano aqui, reencarnadas  em busca de alguma auto-justificação. para outros, uma vida a ser gozada numa eternidade modorrenta, onde uma multidão de pessoas repetirá exaustiva e eternamente (?) um mesmo cântico de adoração que não faz tanto sentido assim.
E daí chego em um ponto em que preciso alterar minha afirmação acima. Nós não temos apenas uma certeza. Além do fato de que vamos morrer, também podemos ter a certeza de que temos essa vida que estamos vivendo. E essa vida é certa, qualquer outra é apenas esperança.
E daí nasce a minha grande inquietação. Há um mundaréu de pessoas que parecem ignorar que têm uma vida para viver e então dormem acordadas. 
Dormir acordado é pior do que sonhar acordado. Dorme acordado aquele que tem vontade de fazer, mas não faz porque tem medo. Dorme acordado aquele que tem vontade de terminar, mas não termina porque não sabe como será julgado pelo que decidir. Dorme acordado aquele que tem vontade, mas renuncia por causa de um dogma ou por causa de um Deus. Dorme acordado quem sabe que a vida passa e apenas assiste a vida passar.
Tenho verdadeiro horror a quem não se permite viver os desejos, as vontades, as loucuras, as revoltas. Cada vez mais as pessoas são menos. Cada vez mais as pessoas são de mentira. Não falam o que querem, não pedem o que desejam, não revelam o que sentem. Querem viver sob a segurança de que nada pode dar errado e, por essa razão, não fazem nada a fim de que algo dê certo. Insistem em 0 a 0 (e nem pensam em tentar, pelo menos, o 1 a 1).
Sem contar quem pensa que o mundo está perigoso e, então, o melhor é não sair de casa, não se expor, para que, então, não morra cedo e viva muito. Mas viva muito o que? O tédio de um tempo que passa, mas que não acrescenta?
Quer saber? Morrer é uma merda, mas não viver é pior ainda. E é daí que eu acho que antes não morrer, mas se o oposto for não viver, antes, então, morrer aos 32 como o Cazuza, aos 34 como o Senna, aos 36 como o Renato ou aos 27 como Hendrix, Joplin, Morrison e Winehouse, do que aos 80 como alguém que além de não fazer tudo, também não fez nada.
As pessoas ficam presas às neuroses paternas, maternas, aos medos a que lhes são sujeitados desde cedo, aos dogmas que lhe são impostos desde sempre, regras que não sabem de onde vêm e, quando menos percebem, estão imersos numa depressão que não sabem de onde veio, mas tem a razão óbvia de não se terem vivido, mas apenas lamentado.
Assim não pode. É imperioso que em determinada altura da vida mandemos nossos pais, avós, pastores, padres, compadres, ídolos e heróis, às favas (no bom sentido e com todo o carinho). A receita deles é para eles e não nos pode ser refém. E ainda que possam estar certos, devemos errar com convicção ("errar rude" como diria "o deus da tribo da Polinésia" da Porta dos Fundos clique aqui).
Ora, se inferno existe, ele já começa aqui na terra quando a vida é menos do que deveria e a vontade é mais do que a ousadia. 
Se danação realmente há, ela já se mostra desde quando nos exigem muitos nãos sem que nos deem qualquer sim. 
Se outra vida há, ela não tem que ser melhor do que essa porque essa foi ruim. Ela tem que ser melhor do que essa porque nessa aprendi mais de mim.
Mas eu não sei se há inferno, se há danação, reencarnação ou seja lá o que houver para depois que esse corpo deixar de respirar. Sei que não gosto da ideia de morte e que me é confortável ansiar um futuro eterno em que eu sempre exista, de preferência próximo de uma divindade que em tudo me susterá. 
Sei que tenho essa vida de agora de cujo ônus maior a me desincumbir é fazer viver valer a pena. E não há vida que viva bem se vivida sob o medo de morrer. Morrer não é um problema, é um fato. Deixar de viver é que deixa tudo um saco. Então dance, transe, trance, canse e alcance o infinito que nasce dentro de você. Faça isso tudo só por você que, no fim de tudo, é só quem deve importar pra você. 
O epílogo do texto é de Vinícius. O problema não é deixar de viver depois de ter vivido, o problema é não ter mais tempo pra viver o que nunca teve coragem de se permitir ter vivido.
O prólogo será do Chico Anysio e sua sabedoria de quem entendeu a importância de aproveitar a vida que Deus - segundo, agora, a minha concepção - lhe deu: 
"Eu não tenho medo de morrer, eu tenho pena." 

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Cada vez menos diferentes. Cada vez mais desiguais

Os rumos que a sociedade, que o convívio social, vem tomando me preocupam muito. Aparentemente todos têm a forma certa de fazer algo que o outro faz. Só que desses todos, cada um tem a sua e considera errada todas as outras que são diferentes da sua.
Hoje todos são críticos de tudo. Todos entendem de tudo. Todos discursam e pedem mais humanidade, mas ninguém está disposto a enxergar o que é ser humano.


As pessoas, perdidas no orgulho sem razão que sentem de si mesmas, não parecem enxergar a dominação velada a que vêm se sujeitando a partir do momento em que não toleram que o outro tenha seus próprios pensamentos e sua própria forma de encarar a vida e o mundo.
Um ator beija uma mulher que não é sua esposa e o país entra em polvorosa, todos se sentindo aptos a condená-lo, ainda que a própria esposa não tenha tornado pública qualquer intenção sua nesse sentido;
Um Procurador da República reclama da inércia das forças armadas frente ao desolador quadro das políticas no país e é afastado para responder processo administrativo;
Um cientista responsável por um dos maiores acontecimentos dos últimos tempos aparece com uma camisa estampada com várias imagens de mulheres e o mundo - literalmente de todas as partes do mundo - mesmo sem conhecê-lo intimamente já lhe taxa de sexista;
Uma mulher resolve programar a própria morte a fim de evitar um fim sofrido em razão de uma doença terrível e lá está a patrulha pronta pra dizer o quanto ela está errada;
Um jornalista demonstra falta de apreço por determinada região do país e logo chega a turba pronta para linchá-lo como se fosse seu dever abrir a boca só pra falar o que um dado grupo quer ouvir.
O engraçado é que a moda agora é dizer que os juízes não são "Deus". Só que o tempo todos nos colocamos na posição de divindade capaz de saber de tudo sobre tudo e sobre todos. E estamos tão confiantes de que realmente o sabemos, que nos apressamos em apontar, censurar, condenar.
Em todos os cantos, em todos os lugares alguém está procurando um fato qualquer pra transformar em polêmica. Não sei se para desviarem a atenção de si, cada vez mais e mais pessoas apontam para o outro. É sempre o outro quem erra, quem faz ou fala bobagem. Eles - os que falam - não. São sempre morais, sempre éticos, sempre corretos. Só não se sabe segundo a cartilha de quem.
As pessoas estão chatas. O mundo virtual aproximou muita gente que não tem razão pra estar perto e então, cada qual a partir da sua casa, mas pensando conviver com o mundo, acha que entende das pessoas, das gentes, quando já é bem pouco aquilo que entendem de si mesmos.
Aquela história de se colocarem no lugar do outro, de entender suas razões, suas circunstâncias, não existe mais. Estão todos ocupados demais colocando-se em diferentes lugares, se transformando em diferentes pessoas para agradar todos os diferentes grupos e acabam sendo todos, mas não sendo ninguém. E quanto menos somos nós e mais somos o que esperam de nós, menos entenderemos que a última coisa que deveríamos é tentar que sejamos todos iguais...

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Incômodo: uma sociedade que não se permite plural

Ao contrário do que a propaganda insiste em afirmar, ser diferente não tem sido normal. Ser diferente tem sido motivo de escárnio, de indignação, de diferentes injúrias e diferentes formas de discriminação. E não me refiro às diferenças de raça, sexo ou gênero. A diferença que mais vem sendo atacada é a diferença de opinião.
As opiniões nunca pareceram incomodar tanto. Por alguma razão que só o tempo passado explica e o tempo futuro confirmará, vivemos uma época em que as opiniões alheias têm sido ora motivo de acréscimo de autoestima, ora motivo de execração do outro.
Nesses tempos atuais, as pessoas gozam na satisfação de ouvirem pensamentos que se assemelham ao seu ao mesmo tempo em que se encolerizam quando ouvem algo que não são capazes de considerar. Assim, a impressão que se passa é a de que estamos todos sempre armados, sempre preparados para o patrulhamento de pensamentos que não nos dizem respeito. E se nos insurgimos contra nosso “adversário intelectual”, raramente é com um intuito de paz ou de reflexão, mas apenas com uma tentativa (in)consciente de escorraçá-lo pelo simples fato de ter ousado falar.
O silêncio, pouco a pouco, vai tomando conta das pessoas. É cada vez mais raro acharmos quem fale o que pensa ou quem assuma um desgosto, quem confesse pecado ou um preconceito ou até mesmo uma vontade de que tudo seja ao contrário do que é e que a sua vida seja o contrário do que ele mesmo se fez... é cada vez mais improvável que alguém admita um pensamento que seja. A opinião pública “o suicidará”.
De repente o mundo virou uma grande vitrine em que somos o departamento de marketing responsável por convencer o mundo de que somos melhores uns que os outros. Somos pessoas físicas, cidadãos, pagadores de nossos impostos, donos do nosso direito, mas agimos como se fôssemos Pessoa Jurídica, dependente de menos juízo para que alcance uma melhor reputação. A opinião pública passa a ser tão relevante que nos envergonhamos de cada nuança de diferença que nos percebamos.
Mais do que nunca nos queremos a aparência de mais do que todos. Queremos “ser” (mais o certo é “parecer”) os mais devotados à nossa religião, os mais engajados à nossa ideologia, os mais participativos da nossa comunidade. Só que tudo isso só valerá, desde que sejamos reconhecidos como tal.
Como não queremos que vejam nossos defeitos e tememos que não se nos notem as nossas qualidades, corremos a alardear os defeitos alheios, a rebaixar o que é bem visto, menoscabar o que é autêntico, a vilipendiar a quem simplesmente se deixa ser. Logo, somos o primeiro inquisidor da maioria e nosso objetivo é o de que seja menos julgado por eles, julgando-nos a nós mesmos como “o grande maioral”.
Enquanto isso, a sociedade envelhece anos em poucos dias. Não há novo que resista à patrulha que não permite nada e condena tudo. Até há quem pensa, mas prefere calar; há quem queira, mas prefere conter e há tantos que sonham, mas não há coragem pra ousar.
E daí se um gosta do preto, outro gosta do branco, um gosta de mato, outro gosta de asfalto?
E daí se um fotografa o céu, se outro não repara a lua, um ouve música e alguém prefere o silêncio?
Por que o meu jeito tem que ser o jeito do outro? Por que se precisa de música pra dançar, razão pra sorrir e motivo pra chorar? Quem nos deu o direito de censurar, condenar e ridicularizar? Se não há um jeito único de ser, também não há – nem deve haver – um único jeito de pensar.
É... vivemos tudo errado. A semelhança não une, mas separa, justamente porque somos únicos e  não devemos ser iguais. Forçarmos uma igualdade fingida reforçar uma sociedade cada vez mais docente e cada vez mais hipócrita. Quanto mais queremos parecer uns aos outros e pros outros, mais é a distância que nos separa uns dos outros.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Aonde chegaremos? O caminho não parece nada bom.

Os rumos que o Brasil vem tomando me assustam.
Passada a ressaca eleitoral, o que temos visto ao longo da última semana é cada vez mais desalentador. E chego a dizer que duvidava que poderia ser ainda mais desalentador.
Não sei se é verdade que a presidentE, em represália ao fato de a revista  VEJA ter lançado a notícia das denúncias do doleiro Youssef na véspera da eleição, cortou o repasse de verbas referentes à publicidade governamental para a revista em questão.
Não duvido e nem é isso que me preocupa. Eu, por exemplo, não teria problema nenhum em aderir a uma campanha para aumentar o número de assinantes de VEJA só para mostrar para o governo que é um golpe que "não entrou".
O que me assustou foram comentários que li na página do desprezível Paulo Henrique Amorim, responsável por ter divulgado a notícia com "exclusividade".
Na página do dito jornalista, são várias as pessoas que comemoram e aplaudem essa medida, defendendo inclusive, que a mesma medida se estenda à Folha, Estadão, o Globo, SBT e TV Globo. Além de muitos também defenderem que a mídia (a quem eles chamam de "golpista") precisa, sim, ser controlada pelo partido (porque, venhamos e convenhamos, já não tem mais nada a ver com governo).
Mas até chega a parecer que não tem mais jeito e torno a repetir aqui o que já escrevi em outros comentários.
Os eleitores dessa corja comunista que tomou o país de assalto se acham que são tão esclarecidos que pensam que, de fato, estão no controle da democracia e estão contribuindo para que ela aconteça. Como eles são "bem informados" (porque não leem a mídia golpista [?], mas sim as publicações sérias [??] de esquerda), acham que é absurdo alguém considerar a hipótese de que um país "desse tamanho" possa ser comparado aos pequenos países "bolivarianos" para fins de política de dominação ideológica.
Infelizmente, creem piamente que elegeram um governo que promove justiça social porque se preocupa com a dignidade do pobre e ainda se volta contra os grandes conglomerados responsáveis [?????] por 500 anos de segregação do pobre... e isso é o que mais me assusta: a maioria tem assistido tudo se repetir à exata maneira que já ocorreu nos países vizinhos e assiste isso achando tudo normal.
Vamos mal... vamos muito mal.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Conhece-te a ti mesmo (mas saiba que isso dói)

Em algum momento da história houve um pensador que disse que a ignorância é uma benção. Não sei se porque a ignorância pode, eventualmente, servir de uma escusa de consciência bastante eficaz, plenamente capaz de fazer com que nos sintamos bem com a nossa falta de ação.
Mas talvez a ignorância seja mesmo uma benção na exata proporção em que o conhecimento é um fardo, uma grande responsabilidade. E se o conhecimento for sobre nós mesmos, tanto pior (ou melhor, daí vai depender de cada um).
O fato é que conhecermos a nós mesmos implica em deixarmos de ser inocentes de nossa vida e vítimas de nossas circunstâncias. Conhecermos a nós mesmos impede que aleguemos que não sabíamos que o resultado do caminho percorrido, da escolha realizada ou da insistência teimosa não seria mero acaso. Mas ao mesmo tempo, nos autoconhecermos é a causa da consequência doída de “nos afastarmos de nós”.
Sim. Nós todos temos uma autoimagem. Nos pensamos e nos imaginamos prontos, certos, definidos nas nossas escolhas, nas nossas verdades, nossas ideologias e princípios. Nos acostumamos com essa produção (mal)acabada que foi moldada à cada experimentação da vida convenientemente vivida a partir de seus contratempos.
Ainda pequenos buscamos o reconhecimento, a aceitação dentro de diferentes grupos. Via de regra, os nossos grupos de escola eram diferentes dos grupos da rua que eram diferentes dos grupos da igreja que eram diferentes dos grupos familiares. E nos queríamos aceitos em todos eles, ainda que fossem todos bastante diferentes entre si e, a partir daí, aprendemos a ser camaleões de nós mesmos (Zelig, de Woody Allen, é um exemplo perfeito; o Múcio, do Jô Soares, também). Condicionados à necessária adaptação garantidora de nossa sobrevivência (ao menos social), nos descuidamos da realidade de que quanto mais próximos de um grupo, mais distantes de nós mesmos e, se os grupos são muitos, maior é a distância que avançamos de nós.
De repente, já somos tantos que não somos nenhum. (e daí eu me lembro da questão dos ovos no filme “Noiva em fuga”).
Perdidos dentro de nossa própria existência, deixamos de sentir prazer na vida que vivemos porque já não sabemos se somos nós que a vivemos ou se é ela – a vida – quem nos vive. Pior é a sensação de que são outros que vivem a vida que nos foi dada pra viver: estudamos o que querem que estudemos, fazemos ou deixamos de fazer só o que nos mandam e mesmo a nossa crítica é calada por nós mesmos, na medida em que não permitimos que nos cresça o anseio de mudar.
 E tudo piora quando nos percebemos reféns de nós mesmos, quando não nos permitimos pensar diferente e desdizer o que dissemos. Quando nos queremos mais sérios do que a própria seriedade, e nos percebemos incapazes de reconhecer que a melhor forma de viver é aquela que ainda viveremos e não aquela que já vivemos ou que, pior, já nos viveu.
E isso é se autoconhecer. É conseguir deixar pra trás o velho “eu” que não é a gente. É deixar pra trás dogmas e estigmas que nos atam a um tempo sem gozo, sem graça, sem riso e cheio de angústia, de ardência, de dor.
Quando nos autoconhecemos, também conhecemos o tamanho da nossa responsabilidade pelo que dá certo e pelo que dá errado, pelo que acontece ou pelo que deixou de acontecer. Nos afastamos de todos as escolhas que não nos representam e não nos agradam e damos de ombros pra receitas de vida, para as crenças e para tudo que nos atrasa, que nos afasta. Damos de ombros até para o passado, porque quando no autoconhecemos o nosso compromisso deixa de ser com o que era e passa a ser com o que será.
E a gente não tem medo de mandar vir. A gente sabe bem o porquê é que quer mesmo e vai (mesmo) encarar. Afinal, quando a gente se conhece, a gente sabe, inclusive, aonde a gente quer chegar...

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Diálogo do reencontro depois do adeus vivido, mas que nunca foi dado

- Não passou...
- Não?
- Nem pra você. Sempre era o meu nome, sempre era o meu jeito, sempre tinha algo de mim, mesmo que não fossem eu. Nunca era eu... eu sabia que... eu sabia que todos os outros, eles todos eram um “quase eu”.
- Eles não eram você.
- Você tem certeza?
- Tenho. Tenho essa certeza desde a primeira vez que te disse não e você sabe que eu te avisei. Foi você quem insistiu. Eu tenho essa certeza desde quando não pedi pra você ficar e tampouco senti a tua falta depois que você se foi.
- É... eu bem sei que eu é quem fui. Mas, engraçado... se fui eu quem foi, por que foi você quem voltou?
- Hã? Ninguém volta se continua no mesmo lugar, não. Eu não mudei, eu não saí, nem me mexi. Te vejo de onde eu sempre te vi. Ou melhor, nem te vejo. Já te vi, mas o certo é que não te vejo. Mal te lembro... nem te lembro.
- Só que mesmo esse teu “mesmo lugar” agora é diferente do que era. Aliás, tudo é diferente do que era. Eu não sou aquele, mas você... você ainda é menos aquela. A vida te experimentou muito, mas a vida te experimentou menos do que você experimentou dela. Quem você era antes, é criança perto de quem você é agora.
- E quem eu sou? O que tanto você acha que sabe olhando de tão longe, de tão distante?
- Ah... e você não sabe melhor do que eu? Vai me dizer que estou errado quando digo que você tem sentido a vida mais urgente? Eu estou errado quando, desde aqui, sei que a ideia de vida, de viver, de querer, de conquistar, de fazer... de que tudo isso acordou diferente em você naquele exato momento em que você se despertou? É... Você está certa. Você não voltou. Não. Não mesmo. Você me chegou. Chegou diferente. Chegou – não diria confiante – mas com um algo mais indiferente ao resultado. Você joga... ganhar, para a você de agora, é consequência indiferente perto da ansiedade de jogar.
- Humm... então quer dizer que agora você decidiu que eu não tenho problema nenhum em sentir dor, em sofrer? Tua soberba é tão grande que te faz mesmo achar que vai me guiar pelo sentimento que você quiser me despertar? Será possível que você não percebe que as minhas urgências não tem nada a ver com tempo, com prazo, com nada... a minha urgência é o tempo que eu tenho para ser eu mesma. Quero me assumir sem dar satisfação. Quero a satisfação sem dar satisfação. Quero sonhar sem-vergonha, quero sonhar sem medo, quero sonhar livremente com a viagem de daqui a pouco, com a vida de agora, com qualquer coisa que não seja mais distante do que o amanhã. Até que depois de amanhã já esteja sendo outra longe daqui, em outro lugar.
- Nossa... eu lembro bem de que antes você queria amar...
- E continuo querendo. Mas antes amava amar e achava que isso bastava. Chegava a achar normal que eu gostasse mais e que gostassem de mim menos do que gostava dos outros. De todos eles – e você sabe que não foram muitos. Mas... era tipo... se não era como eu queria, a culpa era minha por querer. Se não era como eu sonhava, a culpa era minha por sonhar. Eu é que pensava que tinha que ser o tempo todo. Eu é que achava que tinha que ser pra sempre, sempre. Mas não foi. Nunca foi. Às vezes, de tanto ouvir que eu era tanto, parecia que eu queria demais. Cheguei a acreditar – mesmo – que já tinha passado a hora de eu saber que eu precisava ser menos eu para agradar mais ao outro...
- E eu sempre pedia pra você olhar e ver que todos os outros é que eram pouco pra você...
- É você dizia, sim. Mas não era o que o parecia.
- Você deixava te fazerem mal. Era como se você tivesse medo de quem aparecesse querendo te fazer bem. E, mesmo assim, o tempo todo você queria fazer o bem que não te faziam. Era como se você sentisse que não te aceitavam, que não te queria e, então, passava a se ver como se você fosse menos do que era, menor do que é. Você passava a se sentir rejeitada, como que reduzida a muito menos do que o muito que você é perto de qualquer pessoa e se sentia menos até diante daquilo que te falavam - eu te falava - do que viam em você. E daí, como se precisasse "compensar" uma falta tua, você seemtregava ainda mais a esses que não te viam ou te diminuíam (porque eles, sim, era, pouco!) como se você não quisesse aceitar que aquele tempo passado é investido parecia virar tempó perdido...
- Mas foi perdido... cada escolha, cada não, cada aposta, o tempo passou, os anos passaram, a vida chegou a parecer uma sala escura com paredes se fechando até não haver mais espaço, nem ar, nem nada que me lembrasse de mim.
- E quem é você hoje?
- Acho que uma menina assustada...
- Que tem medo de que?
- De não ter mais tempo...
- Sempre tem tempo...
- Mas é menos tempo...
- É todo tempo...
- Pode ser pouco...
- Mas pode ser muito.
- Era você...
- Não entendi.
- Não fazia sentido que tivesse acontecido qualquer coisa. Eram mundos opostos, dois estranhos que se entenderam bem demais. Parecia muito certo num momento muito errado. O medo de passar o tempo, chegar o futuro e sofrer por não ter dado certo... sei lá. Parece bobo, mas acho que olhei pra frente e tive medo de correr o risco de ser feliz e não conseguir. Olhei pra trás e quis voltar à vida que tinha porque pelo menos tinha minha alegria. Era uma alegria triste, mas até aquela tristeza era mais minha companhia do que o risco de ser feliz sem saber lidar com isso.
- Eu queria te ensinar a ser feliz.
- E você sabia como era?
- Touchè... nunca soube, mas ia aprender pra te ensinar, ou aprenderia junto de você. Só sabia que seria diferente de tudo o que pensei que já sabia. Mas você não quis...
- Eu tinha medo. Era muito intenso. Era comovente... você sabia como tinha sido minha vida. Nada do que vivi era parecido com o que você parecia propor.  Era demais. Era bonito e eu não me sentia bonita... não do jeito que você parecia me ver, para além dos meus olhos, do meu rosto, para além de mim. Eu não via quem você via e me comovia saber que existia alguém que me via “assim”, daquele jeito que parecia que só você via. Um assim que eu não sabia, sequer, se um dia eu seria, mas parecia certo de que não era eu aquela que você via...
- E então, por isso, você resolveu andar pra trás... mas o que houve depois? Você se fez distante.
- Depois já era tarde demais. Pra mim, pra você, pra mim com você, pra nós dois. Como eu ia te procurar? Com que pretexto eu surgiria depois de ter agido tão mal? Depois de ter me escondido de você? Tive vergonha e tive medo. Nunca soube se seria bem vinda na tua vida e seria terrível ter a certeza de que não tinha, mesmo, mais você... e parecia que você fazia questão de me mostrar que tinha seguido em frente, e que eu era só um passado amargo e amargurado de que você parecia até se arrepender. E não te culpo...
- Só que não me arrependi. Não me arrependi de nada do que disse, revelei, tentei, ousei, quis. Mas teve um preço e durante muito tempo, só o que sentia era a dor que, até então, eu nem sabia que existia tanta... a tua indiferença foi a mais doída porque me veio de quem nunca pensei que me viria e num momento em que eu não esperava ficar sem você...
- Sabe... eu sempre te via. Mesmo quando ficava quieta, mesmo quando parecia que não queria saber de você, quando me apressava em terminar uma conversa ou até evitava deixar você iniciar alguma conversa, mesmo nessas horas eu via você sem nem me dar conta, nem saber. Eu te lia e sabia que me tinha ali. Via tuas fotos e nelas você sorria, mas sempre me parecia faltar algo no teu sorriso e meu íntimo dizia que aquele sorriso sorria menos... e até gostava de achar que o motivo era eu. A parte que faltava do sorriso teu.
- Eu esperei...
- Eu também. Mas esperei diferente. Eu esperava que seria uma lembrança engraçada, distante, vaga, errada. Que não faria diferença. Mas de repente eu estava com outro que não era você e ele fazia lembrar você: “seria assim se fosse com ele?”, “como seria comigo, se ali com ele fosse eu?”. Então você sempre esteve aqui.
- E eu ainda estou aqui... agora.
- Humm... É bom esse abraço. Fazia tempo...
- Ei, olha pra mim: “eu... estou... aqui... agora”...
- E eu também. Sorrindo feliz. Sorrindo viva. E é melhor do que eu sabia que seria e... olha, depois de tanto tempo e depois de TUDO isso, nem pense em sair daqui. Ainda não sou nada corajosa, ainda tenho muito medo, mas não agora. Agora não vou permitir... tira o relógio, esquece da hora, não saia nem se for dizendo que não demora. Foi você quem disse que tudo é urgente e se amanhã o amor será certeza, pouco me importa agora, volta, me beija e do depois a gente cuida outra hora...

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Criminalização da homofobia: uma bobagem totalmente demagógica e desnecessária

Os debates presidenciais sempre têm a sua utilidade. Ainda que em 95% (com uma margem de erro de 3 pra mais ou 3 pra menos) do que os candidatos falem sejam promessas ensaiadas e destinadas ao não cumprimento, há certos momentos em que a personagem perde para seu ator.
O debate de domingo realizado pela Rede Record é um exemplo disso. A partir dele podemos tirar algumas conclusões: a) a Dilma é completamente despreparada e dependente do que mandam que ela diga até mesmo na hora de dizer; b) a Marina não tem absolutamente nada a dizer; c) pastor Everaldo não dá conta de pregar 10 minutos, quanto mais presidir uma nação; d) Luciana Genro é uma descompassada; e) Eduardo Jorge é um pândego; f) Aécio Neves é um político profissional (e isso pode ser bom e ruim ao mesmo tempo); e g) Levy Fidélix é um autêntico ultraconservador de direita autêntico (sim, dois autênticos na mesma frase). E é justamente sobre a declaração de Levy Fidélix a respeito da união de homossexuais que esse texto pretende discorrer.
Algumas frases se fazem notórias porque muito bem urdidas. Algumas porque são julgadas infelizes pela grande maioria dos sempre ávidos e prontos críticos de plantão. A do presidenciável (?) foi: “órgão excretor não reproduz”. A despeito de ser uma afirmação biologicamente correta, ela é carregada de um preconceito que, infelizmente, não é exceção, mas a regra da maior parte da população. Nesse sentido, não custa que lembremos que a homossexualidade não é apenas masculina, mas também pode ser feminina e, via de regra, elas não têm a necessidade de se valerem de seu “órgão excretor”. Além do mais, são muitos os casais heterossexuais que aderem à utilização desse “órgão”, muitas vezes em relação de mutualidade.
No entanto, a frase em questão inflamou uma discussão que há tempos está na pauta política e dos formadores de opinião: a criminalização da homofobia. E daí eu me sinto obrigado a dizer que falar em criminalização de homofobia é uma bobagem.
Fobia é um medo persistente (e irracional) diante de uma situação, uma atividade, um objeto ou mesmo um animal. Vamos criminalizar o medo? Homofóbico não é o que tem aversão à homossexuais. Homofóbico é aquele que tem medo deles. O que tem aversão é preconceituoso e ser preconceituoso não é crime. Discriminar em razão do preconceito, sim, é crime. E só é crime, porque já há lei penal criminalizando a conduta.
Levy Fidélix não é homofóbico, assim como a maior parte da população brasileira também não é homofóbica. São (ou somos) quase todos preconceituosos, seja com isso, seja com uma raça ou uma cor de pele. Mas sua frase deu azo a que os demais candidatos se valessem de discursos politicamente corretos, temendo o patrulhamento dos “indignados-por-qualquer-coisa-de-plantão”, sempre incapazes de aceitar que há aqueles que também são diferentes na medida em que não tratam com naturalidade certas diferenças (seja por cultura ou escolha).
Você consegue imaginar alguém tornar crime ter medo de lugares fechados (claustrofobia) ou que seja crime ter medo de barata (Catsaridafobia) ou medo de altura (acrofobia)? Parece absurdo, não? Pois é mesmo.
Qualquer estudante de Direito aprende que a norma penal deve apresentar um núcleo do tipo e um objeto jurídico tutelado. Qual seria o núcleo do tipo da “homofobia criminalizada”?
·                                                        - Ter medo de que homossexuais vivam sua homossexualidade:
                             Pena de 06 a 20 anos.; ou
·                                                 
                                                         -  Não concordar que homoafetivos vivam seu afeto:
                            Pena de 04 a 12 anos.
                   §1º Aumenta-se a pena em 1/6 se o sujeito do crime assistir filmes com lésbicas e ménages femininos;
                         §2º Diminui-se a pena em 1/3 se o indivíduo aceitar a conduta ativa? 

É isso mesmo?
Não podemos admitir que o Estado arrogue para si o direito de obrigar as pessoas a mudarem suas concepções na base da coação. Que se atuem políticas públicas no sentido de desestimular o preconceito, de ensinar a importância de se tratar o ser humano como igual independente de sua cor, sua raça ou sua orientação sexual. Mas não tornando quem pensa diferente em criminoso.
Aquele que discrimina porque não concorda, é criminoso.
Aquele que não concorda (e são muitos!) é apenas um cidadão exercendo o seu direito de opinião.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

A hora do BASTA...


"Justo a mim coube ser eu."
(Mafalda)


Não somos invencíveis. Podemos até ser brasileiros e acreditarmos naquela história de não desistir nunca, mas o nunca é um tempo pior do que o “para sempre”. O nunca é o “para sempre” que não acontece... nunca. E daí, se não tivermos consideração por nós mesmos, viramos reféns desse nunca que faz com que não saiamos do lugar.
Explico: teimosia não é perseverança e nem toda perseverança é útil. Muitas vezes o melhor a fazer é colocar o ponto final em histórias que se sustentam em reticências que deveriam dizer muito, mas a cada capítulo que encerram, dizem cada vez menos. Ou dizem apenas “não”.
Então chega!
Uma vida que se vive pra frente não pode ficar presa em círculos que não se encerram. Uma vida que se vive pra frente não pode olhar pra trás, não pode olhar pros lados e nem para os “porém” ou “senões”. Ainda que tenhamos vários motivos para continuar, um só motivo deve bastar para encerrar. E se alguém não te entender que fique com sua dúvida, enquanto você cuida da tua vida. Todos os outros são desimportantes quando comparados a você por você mesmo.
Chega uma hora em que é preciso desistir daquele sonho que nos trava, mas pelo qual não fazemos nada, e isso, antes que cheguemos numa hora em que o tempo que nos resta é menos do que o tempo que já nos passou.
Não temos que ouvir desaforos de quem não nos vive e nem conselhos daqueles que não nos sabem. Não temos porque prender nossa vida em nome de uma hipótese de felicidade antiga, passada e perdida num tempo que não alcançou o nosso presente e que parece certo que não fará parte do nosso futuro. Da mesma forma, também não precisamos ser reféns de nós mesmos diante de uma perspectiva de dor, de angústia, de incertezas quanto a quem estamos nos tornando na medida em que deixamos de viver à intensidade de quem somos.
Não temos que ser os turrões que não dão o braço a torcer e nem se permitem o fim (que teimam julgar precoce) porque isso lhes faria perdedores. Saber desistir de uma batalha perdida é, também, se preparar para vencer as que ainda virão. Enquanto há vida, vale a pena deixar uma batalha que nos leve a refletir sobre o verdadeiro significado de ainda estar de pé.
É por isso que há um momento em que é necessário que digamos “basta”. Basta de idealizações, de devaneios, de ensaios. Basta de tudo que é planejamento e que nos impede a ação. Basta de tudo que é medo e nos impede a vida. Basta de tudo que é amargo e nos impede o amor. O tempo é sempre implacável, é sempre cruel, é sempre corrido. E nós, mal acostumados, deixamos que ele corra livremente, deixando-nos para trás, carregados de uma bagagem de sentimentos e ressentimentos em razão de tudo que já nos queríamos desde antes até agora, mas que, feliz ou infelizmente, não nos chegou.
Mas somos nós que devemos fazer chegar...
Ah... se nós ao menos nos déssemos conta do quanto as horas que temos são preciosas justamente porque não são infinitas. Penso que, então, as desperdiçaríamos menos, já que conscientes de que cada minuto que passa é um minuto que já não nos pertencerá. Sim... somos reféns do tempo que não temos e nem percebemos.
Não temos tempo para ficar esperando termos tempo. A vida é urgente, os sonhos são urgentes, as escolhas são urgentes, a coragem é urgente e o amanhã só não é mais urgente do que o hoje, o agora.
Se não sabemos onde queremos chegar, também não saberemos o melhor caminho a ser trilhado. Se não sabemos o que nos faz feliz, também não saberemos como encontrar o que seja essa felicidade que parece fazer bem. Sonhamos com ela, mas sabemos cada vez menos o que ela é.
Agora, quando sabemos que o que queremos está longe do que é possível pelo jeito que vivemos, está na hora de sermos mais a gente do que os outros, recolhermos nossas coisas, juntarmos nossas malas (ou até deixarmos nossas malas), virarmos ao destino para aonde vamos e simplesmente acenar o adeus (à vida de antes, ao amor que não serve, ao beijo que não acende, ao sexo que não satisfaz, ao gozo que não tem, ao trabalho que chateia, ao estudo que não ensina e nem aprende, em suma, à burocracia de uma vida de conveniência para agradar um monte de gente inconveniente e que nenhum bem traz pra gente).
Basta! Não desperdicemos mais do muito que já perdemos. Concentremo-nos no que ainda nos há. Não sabemos se o tempo é muito ou se o tempo é pouco. Não sabemos se tudo ficará do mesmo jeito ou se tudo vai mesmo mudar... mas de uma coisa podemos ter certeza: se não está bom agora, não devemos ter qualquer razão que justifique sequer pensar em continuar... basta do que já era; melhore o que ainda virá.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

104 anos de Corinthians - e o Parabéns é todo nosso que somos a torcida incomum de um time sem igual

A minha resposta é sempre a mesma para quando me perguntam: “mas você é corinthiano?”. Com todo o prazer e sinceridade do mundo, eu respondo: “graças a Deus!”
E eu agradeço a Deus mesmo. Ser corinthiano é um dos maiores prazeres de uma vida cheia de prazeres. Seja rindo, chorando, xingando ou comemorando, ser corinthiano é achar em mim mesmo a essência mais definidora e definitiva de mim.
As demais torcidas têm raiva da nossa torcida porque nos afirmamos mais amantes do nosso time do que eles são do time que os têm. Mas os fatos falam por si e aquele que certa vez falou que “todo time tem uma torcida, mas o Corinthians é  uma torcida que tem um time”, não poderia ter sido mais feliz.
O Corinthiano é diferente. Ele vai pra ver o time jogar. Ultimamente, acostumado que está a vencer, tem se feito mais intolerante aos momentos de poucas vitórias ou de muitos empates. Mas, em seu íntimo, sabe que a vitória é um mero acessório do principal que é ver seu time entrar, jogar e ganhar.
E não há torcida igual.
Não há torcida capaz de encher uma cidade inteira, com 500 ônibus saindo de São Paulo tremulando bandeiras pela via Dutra, numa chegada tão apoteótica, que fez até mesmo Nelson Rodrigues arrepiar.  E se parece pouco, também digo que não há torcida capaz de dar a volta ao mundo e ir ao Japão (mais de 20 mil) só pra ver seu time jogar. Mas não foi só jogar... foi ver seu time jogar e ser campeão.
Ah... aquele Corinthians campeão absoluto do Brasil em 2011, da América em julho de 2012 e do mundo no fim desse mesmo ano. Parecia até que os Maias acertariam. Eram muitas vitórias de um time que calou um país inteiro que torcia contra, mas que tinha uma nação inteira para por ele cantar e gritar: Vai Corinthians!
Cássio, Alessandro, Chicão, Paulo André e Fábio Santos; Ralf, Paulinho, Danilo e  Jorge Henrique;  Emerson e Guerrero. Antes do Guerrero, Liedson. E apesar de todos esses, ainda um abusado, tal de Romarinho, que fez “La Bombonera” não passar de um “saco de balinhas”. Todos regidos por um Tite que, finalmente, se fez grande e entre os grandes se assentou.
Ainda assim, fico com o que canta um corinthiano dos mais geniais, o grande Toquinho: Ser corinthiano é ir além de ser ou não ser o primeiro. Ser corinthiano é ser também um pouco mais brasileiro.
Ah, Corinthians... são 104 anos de história, de conquistas, de aprendizado e de amor. Maior amor, maior história e o melhor da vida! Parabéns, Corinthians! Parabéns pra todos nós que temos você e somos de você...

Em 2011, ainda antes da Libertadores e do Mundial de 2012, escrevi, por ocasião dos 101 anos do Corinthians, o texto que traduz de forma definitiva o que é, pra mim, ser “coríntia”. (clique aqui)

Então, só me resta dizer: Vai Corinthians!”

sábado, 30 de agosto de 2014

Dormir ou viver? Ficar ou fugir? Correr ou deitar? Viver sem sentir, nem amar até despertar. E aí? É por aí?

Era daqueles dias em que se acorda sem precisar fazer nada. A ideia de passar as próximas 72 horas na cama lhe era das mais sedutoras. Não tinha planos, não tinha família, não tinha vontade, não tinha nada. Mas de repente tudo isso parecia estranho demais.
Não que fosse dos mais festeiros, dos mais presentes ou dos mais afetivos. Sempre mais ocupado consigo, pouco lhe importavam as convenções e as expectativas. Bebia quando queria beber, dormia quando queria dormir, satisfazia-se quando queria se satisfazer e, pra tudo isso, nunca achou qualquer dificuldade que lhe fosse maior do que a que ele mesmo se representava.
Era daquelas pessoas altivas, indiferentes, mas que prestam atenção. No seu íntimo se ria de todos, pareciam banais. Ao mesmo tempo, não lhes negava qualquer apoio, uma palavra ou um aperto de mão. Acostumado a ser dos que são procurados, desaprendeu a procurar. Suas chegadas sempre só menos caladas do que suas saídas. Não se sabia perceber, nem ser percebido, tampouco sabia se era alguém cuja presença alegrasse ou a ausência se fizesse sentir. Mas se era solução de tantos, por que não seria, ele mesmo, a solução de si?
Lia tudo. Lia livros, lia olhos, lia almas, lia corpos, lia mãos. Assustava. Parecia sempre saber mais do que revelava, mas para si e consigo, sempre pensava saber menos do que precisava. Curioso de todas as vidas, buscava em quem via o que não era mostrado, o que era calado e qual era a razão do constrangimento de se permitirem ver... qual o medo que as pessoas têm de que saibam quem elas realmente são? Ele sempre sabia. Presunçoso, mas com suas razões...
Mas estava naqueles dias em que se acorda sem precisar fazer nada e ele não precisava fazer nada. No entanto, de repente ele precisava fazer algo, e fazer algo era fazer tudo, era viver tudo, experimentar tudo, não deixar nada de fora desse tudo que nascia de dentro de alguém que até então não precisava fazer nada.
Pela primeira vez a cama foi ambiente inóspito. Logo ali em que viveu seus melhores momentos seja dormindo parado ou acordado em intenso movimento, agora lhe parecia como a cama do faquir que ele não era. Levantou-se.
Depois de muito tempo, deu-se com o Sol. Já nem lembrava que Sol havia, não que não enxergasse a luz do dia, só não parecia mais forte do que o conjunto de trevas que o ocupavam desde si.
Só que agora havia cores, via cores. E eram cores naturais. Diferente do que ele era. A natureza que se lhe apresentava – ele bem sabia – existia desde antes dele e ali continuaria quando ele não fosse mais, mas era diferente. Ele via mais do que enxergava no todo do tudo que reparou. Teve sede e viu-se quando à margem da água cristalina que precisou - e se deixou - beber. E não é que até o reflexo turvo da água que se movia lhe mostrava outro alguém que ele já não sabia que era?
Depois de muitos anos, quis correr. Depois de muitas noites, quis amar. Depois de muito tempo, quis ser tudo de novo aquilo tudo que não poderia ter deixado de ser.
Se antes tudo parecia tarde, agora tudo parece estar no momento, esse parece ser o momento. É urgente, sim, mas é o momento. O momento do novo, do ousado, do abusado, do excedido e do fim do soberbo que, ao menos em arrogância, pouco fez questão de ser comedido.
Ouvia as outras vozes que antes pareciam tolas. Agora só parecem o que, realmente, são: vivas.
Assistia outras pessoas que antes pareciam “apenas” vivas e via, agora, o que elas, realmente, são: gente.
Assistiu aquela gente e descobriu-se quem realmente é: mais um.
Mas não se sentiu mal por ser mais um. O mais um lhe fazia parte de um grupo que pensava que não tinha e lhe unia a uma história que apenas sabia que existia. Agora era mais um que queria sentir o que já há muito tinha calado, enterrado e que pensava ter até matado, mas que tão-somente dormia.
Quis ligar para os números que já não tinha; quis ouvir as vozes que há tempos não ouvia e mesmo sem qualquer sentido, quis até montar ao cavalo que nunca teve e escalar o monte que nunca viu. De repente era mais um dentre tantos que, mesmo se sabendo um, não se queriam ser apenas esse um. Lembrou-se de quem era, antes de ser quem se fez. Lembrou que amou, lembrou que gostou, que quis, foi querido, gostado, amado... e odiado também, mas agora sentia e já fazia muito que não lhe era normal sentir.
(E de repente se pergunta: Será culpa desse sol que sempre houve, mas que parece pra ele só ter nascido agora? De onde vem a luz que lhe sangra a escuridão e lhe permite que renasça vida? Vem do infinito e desde ele entra ou já estava guardada no peito de quem por medo de amar, ao autoexílio condena? Foi a noite que perdeu a graça ou ela nunca passou de jazigo que guardava um corpo que vivia sem vida?)
O tempo passou, mas não acabou e, então, se há tempo e se há vida, faça-se da vida a vida que tem que ser. Dança, corre, salta, beija, ama, deflora, namora, permite, se deixa (até boceja), mas logo deseja e busca e acha e toma e se embevece seja de amor ou de cachaça.
Até a ressaca que há muito esquecida, agora surge como uma parte da vida que não pode passar. Tudo urge, mas urge com calma...
Calma... os dias não lhe roubaram experiência, só fizeram-lhe cético. Já não sucumbe aos primeiros impulsos. Ainda não levantou. Não ligou para todos os números, nem ouviu todas as vozes. Não subiu nenhum monte a cavalo. Mas agora sentia... até ausências e quereres que não mais tinha, agora ele tinha.
Levanta-se da cama, espreguiça-se, deixa a cama agora já é passado (ou começo de futuro), por ora, só deixou de ser cenário. São 72 horas para fazer tudo, inclusive nada. Mas quem disse que fazer nada não pode ser tudo o que se tem para fazer?
Talvez mais tolerante, talvez menos ranzinza, talvez mais permissivo e menos possessivo, apenas sabe que algo mudará, mas não tem pressa. O tempo que tem é o tempo que lhe basta acabe ele daqui a muitos anos, acabe ele na semana que vem. Quanto à espera? A espera até agora lhe fez consciente de que viver é bom quando se tem consciência da importância que tem a vida da gente, mas que no fundo, a vida da gente – de toda a gente – é bem pouco importante pra vida dos outros que têm a sua própria vida assim como a vida da gente.

Mas é por aí?

Insistência X Persistência

Nem sempre é das tarefas mais fáceis diferenciar insistência de persistência.
Sem dúvida os mais vitoriosos são aqueles que não tiveram problema em ser persistentes na busca pelos pódios que se queriam. Enfrentaram medos, contratempos, desânimos e desanimadores sem perderem o foco que já tinham definido desde antes de sua caminhada.
Já o insistente é aquele que às vezes não sabe o que quer  ou mesmo já até sabe que nem quer, mas ainda assim, continua repetindo os mesmos caminhos, as mesmas falas, os mesmos erros.
A persistência é o segredo de qualquer sucesso; a insistência é o motivo da maioria dos desacertos.
Insiste-se no que não nos pertence. Persiste-se no que ainda nos pertencerá.
Muitas vezes insistimos em sermos quem não somos e, nisso, repetimos vários comportamentos que nos afrontam, fazemos e aceitamos toda uma sorte de escolhas que nos ofendem e erramos, de novo, os mesmos erros que um dia já nos fizeram mal. Insistir nem sempre é muito inteligente. Nem com a gente, nem com o outro (mesmo que esse outro, por algum tempo, também tenha sido parte da gente).
Que sejamos persistentes pode ser nossa melhor qualidade.
Que sejamos insistentes pode estar entre os nossos piores defeitos. Mas insistimos! Insistimos em não ouvir que nos quer bem, em não houver até mesmo aquela voz interna que nos faz intuir que o caminho que escolhemos está longe de ser melhor ou insistimos em dormir tarde e acordar ainda mais tarde e com isso render menos ou nem mesmo render.
Insistimos em fazer contas que não saberemos como vamos pagar e, se o dinheiro não é um problema, corremos os riscos de insistir em termos mais coisas do que aquelas que vamos, mesmo, um dia precisar.
E no mais das vezes, ocupados com o tanto que insistimos com o que é errado e com o que não nos acrescentará, esquecemos de persistir no caminho que nos levará para onde sabemos que devemos e podemos chegar. Ocupados com a insistência num relacionamento que não funciona, num estudo que não satisfaz, numa profissão que não dá prazer, esquecemos que o relógio não para, que o tempo não para e que, com isso, os dias vão passando e vão formando semanas e meses e anos e, quando pensamos que devíamos estar mais perto de sermos quem poderíamos ser, é que nos damos conta e enfim nos percebemos cada vez mais e mais distante daquele que, não importa o que insistirmos, jamais seremos.
E na exata medida que insistimos em tudo que de nada nos serve é que também insistimos em não persistir.
Todos nós temos sonhos, temos desejos, temos força, inteligência e vida. Mas muitas vezes falta a coragem de enfrentarmos nossas próprias resistências. Temos tudo o que precisamos para que alcancemos tudo o que queremos, mas talvez no mundo de hoje, o que mais nos falte é o que mais se carece para ter persistência: que nos haja paciência.
Estamos cada vez mais ansiosos, impacientes, achando que a nossa vida, no que tinha pra ser vivida, já se viveu e que todo o nosso passado não passa de tempo perdido, não realizado. Mal damos valor ou nos importamos com toda a vida, experiência e conhecimento acumulados.
Na ânsia de chegarmos aonde julgamos que já deveríamos estar, esquecemos que a vida é um processo a ser experimentado e não definido, recomeçado e não concluído.
Erramos quando olhamos o outro e presumimos que seu sucesso é maior do que o nosso fracasso tão retumbante.
Erramos quando pensamos que não estarmos “lá” onde pensamos, é estar no lugar errado em que não deveríamos.
Em compensação (nos) acertamos quando concluímos que o melhor lugar para estarmos é no conforto de sermos nós mesmos, líderes de nossas ideia e ideais, convictos de nossas escolhas e responsáveis por cada uma de suas consequências, sempre cheios de uma maior disposição para o novo que a vida sempre nos fará chegar.
Se até agora tudo que foi feito foi errado, a solução é mais do que simples: não insista.
Fez tudo o que devia e o resultado foi outro, viveu tudo o que devia, mas o cenário mudou? E daí? Pouco importa. O que importa é não parar de buscar a si na vida que só pode ser vivida por quem enxerga através dos olhos que nossos corpos emprestam. E é aí que a gente recomeça, refaz, inicia tudo de novo e, de preferência, de um jeito todo novo, sem que sejamos a cópia mal feita baseada na pouca lembrança que temos de momentos que nem sempre foram nossos melhores momentos.
Assim, se você tem um alvo, um sonho ou um desejo, só há um segredo – que é tão certo – que jamais vai falhar: persista sempre no que é certo, jamais deixando de buscar aquilo que você tem certeza de que é tudo o que você pretende alcançar!

Somos todos Barrabás

Nós somos todos Barrabás. Éramos nós que estávamos condenados a uma morte sofrida e cruel. Éramos nós que deveríamos ser sujeitados ao vitupério e ao vilipêndio da humilhação e da condenação. A condenação era nossa, a morte era pra ser nossa, porque o erro é nosso, a transgressão é - e sempre vem sendo - nossa e se a nossa condenação era certa, não tínhamos outra escolha senão esperar a sua execução.
No entanto, enquanto aguardávamos a execução da nossa sentença de morte, eis que nos é anunciado que, na verdade, agora estávamos livres e que o preço da nossa liberdade foi comprado pelo sangue de outro que, mesmo sem que se tivesse achado qualquer culpa sobre si, aceitou calado morrer no nosso lugar. Nele não havia erro, nele não havia crime, nem muito menos pecado, mas nele havia um amor imensurável, um amor incomparável, um amor mais amante que o amor mais amado.
"Ele toma sobre si as nossas dores", cura as feridas da nossa alma resultado que são das nossas transgressões e iniquidades. Feridas que nós mesmos nos causamos separados de Deus numa vida de pecado e que agora nos cobrava, não como rendição, mas por punição,  o preço da nossa própria vida e à medida que as horas passavam e o momento da morte chegava, a certeza da execução nos causava uma inevitável agonia e aflição. Nosso sofrimento era lógico e tinha razão de ser... Mas de repente o castigo não foi nosso, mas foi dEle e esse castigo dEle nos trouxe uma paz que sequer merecíamos ou fizemos por onde ter.
Lá estávamos nós, todos éramos Barrabás aguardando a execução de nossa sentença, aguardando o momento de nossa morte. Lá estávamos nós presos à correntes de uma prisão que, por nossa culpa, fizemos por merecer, mas no instante em que parecia o nosso fim, ao invés de sermos levados à morte, nos é anunciado que há um Jesus de quem a vida se oferece em lugar da nossa vida pra que, com a sua morte, nós tivéssemos - se não por direito, mas por graça - uma nova vida... As correntes caem, as portas da cela se abrem, somos postos de volta sob a luz do sol e, de longe, bem de longe, vemos alguém sofrendo o sofrimento que era nosso. Nosso corpo não carrega uma cruz, nossas costas não foram açoitadas e nem se mostra a nossa pele moída como castigo. Não. Estamos soltos. Nossos pulmões exalam um ar puro, leve, não carregamos a marca do criminoso, nem o julgamento da turba. Somos pessoas sem culpa, naquele momento em que outro sangue se derrama, nem mesmo criminosos somos mais. Estamos livres, novos, prontos pra recomeçar.
Mas então pensamos (e temos que pensar): se um justo que nada devia, mesmo que ausente qualquer acusação, se cala e aceita morrer em meu lugar para que com isso eu viva, se Ele me dá uma segunda chance de ter vida, eu preciso fazer por merecer a vida que me veio a partir da morte daquele que é, "verdadeiramente o Filho de Deus" que "tira os pecados do mundo", fonte inesgotável de toda a vida, fonte inesgotável de todo o maior amor. 
Se agora eu sei do seu flagelo que deveria ser o meu flagelo, é minha obrigação, no mínimo moral, ser-lhe grato em palavras e com atitudes. Já não posso mais ser o mesmo que eu era quando mereci ser condenado.
Se eu reconheço que eu fui liberto porque Jesus (que não tinha erro, não tinha mentira, mas só tinha a verdade, já que Ele é a verdade) aceitou ser condenado, sofrer e morrer em meu lugar para que eu, agora, mais do que vivo, fosse livre de qualquer grilhão, eu não devo passar um só dia sem olhar pro alto daquele monte e nem olhar pra crueldade da morte naquela Cruz, sem abaixar meus olhos e de coração sincero dizer: muito obrigado Jesus!
"Ele era Jesus Cristo e 'todos nós' somos Barrabás."